INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO PARAIBANO/IHGP
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17º Tema

HISTORIOGRAFIA E HISTORIADORES PARAIBANOS

Expositor: Guilherme d’Avila Lins

Debatedor: Luiz Hugo Guimarães

 

A fala do Presidente:

 

Vamos dar reinício aos nossos debates. Hoje é a penúltima sessão deste Ciclo, que já está dando saudades, e vamos abordar o tema HISTORIOGRAFIA E HISTORIADORES PARAIBANOS, cujo expositor é o nosso consócio Guilherme d’Avila Lins, a quem convido para participar da mesa; como debatedor, a Comissão Executiva do Ciclo colocou meu nome para colaborar com o nosso ilustre expositor e, como já estou na mesa, me considero convidado, dispensando as palmas habituais; convido também o acadêmico Joacil de Britto Pereira, presidente da Academia Paraibana de Letras; convido também nosso consócio Deusdedit Leitão, ex-presidente deste Instituto e grande historiador.

Outro dia já fiz a apresentação do nosso consócio Guilherme d’Avila Lins, que é um dos mais novos sócios do Instituto e também um dos mais novos historiadores. Ele inventou de ser médico, para ganhar a vida, mas viu que esse negócio de Medicina deu pouco e ele arranjou um gancho de historiador.

Guilherme é um estudioso, tem vários trabalhos publicados e é amante da pesquisa.

Antes de passar a palavra ao palestrante, quero fazer, com pesar, um registro especial. Ontem faleceu um consócio nosso, o historiador José Fernandes de Lima. Assim, estamos realizando esta sessão em pleno luto, com nossa bandeira hasteada à meia-verga.

Ele ocupava a cadeira nº 22, do nosso Instituto, cujo patrono é o Cônego Florentino Barbosa. O corpo de Dr. José Fernandes de Lima foi enterrado pela manhã, o Instituto esteve presente pelo seu presidente e alguns associados, e em nome da instituição falou o nosso companheiro Joacil de Britto Pereira na ocasião do sepultamento do inditoso colega.

Dr. José Fernandes de Lima pertencia a uma tradicional família de Mamanguape e teve uma atuação muito grande em nosso Estado. Foi deputado estadual durante 40 anos, foi prefeito de Mamanguape várias vezes, Secretário de Estado, presidente da Assembléia Legislativa e, quando Pedro Gondim teve de se afastar do Governo para se candidatar a reeleição, ele governou o Estado durante 11 meses. Era uma figura íntegra, austera, honesta, e um dos grandes valores da história política da Paraíba.

Deixou vários trabalhos parlamentares e vários trabalhos publicados em nossa Revista. Ele editou, por sua conta, O DIÁRIO DO PARAGUAI, do comendador José Campello, com base numa documentação que ele localizou em Mamanguape.. É de sua autoria o livro A LEALDADE E HEROISMO DO ÍNDIO POTIGUARA PEDRO POTY.

Para prestar nossa homenagem àquele consócio falecido, solicito dos presentes que, em sinal de pesar, façamos, de pé, um minuto de silêncio.

Dando início aos nossos trabalhos, passo a palavra ao expositor deste tema, consócio Guilherme d’Avila Lins.

 

Guilherme d’Avila Lins: (Membro do IHGP, presidente do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica, médico, professor universitário e historiador com vários trabalhos publicados)

 

Antes de dar início à leitura do trabalho que trouxe por escrito, gostarei de fazer algumas considerações preliminares. Quero dizer que me senti muito lisonjeado com o convite me foi para participar como expositor desta sessão de hoje e quero dizer o quanto ele me envolveu porque percebi que faltava apenas um ponta-pé inicial para que sentisse a necessidade de, em seguida, transformar esta palestra numa plaqueta, comprometendo-me a escrever um livro sobre Historiografia e Historiadores da Paraíba, porque este tema é extremamente palpitante. Bem que nosso Estado, que produz conhecimento, letras históricas, literatura de um modo geral, merece ter uma obra específica e independente sobre historiografia. Este é um compromisso que assumo neste momento.

Não pretendo esgotar totalmente o assunto, seria uma veleidade e nem seria possível no espaço de tempo que me é reservado.

Vou me concentrar num resgate dos itens e das considerações historiográficas que precisam ser resgatadas, tendo em vista as lacunas que existem na matéria em nosso meio. Portanto, um grande parte da nossa historiografia será aqui omitida, por razões óbvias.

Terei que dar um enfoque muito maior para o primeiro século, embora eu chegue até o século XX. Eram essas as palavras iniciais que queria dizer.

 

Parece-me de bom alvitre, por razões metodológicas, estabelecer aqui, desde já, as premissas conceituais por mim convencionalmente adotadas, para o desenvolvimento deste tema simples apenas na aparência, ou seja a HISTORIOGRAFIA E HISTORIADORES PARAIBANOS.

Em primeiro lugar, independente das circunscrições conceituais doravante adotadas e considerando-se, principalmente, o limite de espaço e tempo que tenho à disposição, não será possível, nem tampouco necessário procurar debulhar, por extenso, a HISTORIOGRAFIA PARAIBANA e os HISTORIADORES PARAIBANOS, em cujo recorte cronológico se avantajam mais de quatro séculos de produção historiográfica até se chegar aos dias atuais, tendo-se ainda em vista que a cada nova centúria, a partir do Século XVI, terei que lidar com um redimensionamento crescente de autores e títulos, talvez em progressão geométrica, quiçá logarítmica.  Aliás, no desenvolvimento desta tarefa não pretendo sequer atingir os dias atuais e até serei cada vez mais lacunar à medida que for avançando no tempo, pelo menos nesta oportunidade que, espero, seja apenas a avant-première de um trabalho mais elaborado que pretendo publicar sobre o mesmo assunto.

Em segundo lugar, ao longo desta exposição achei por bem entender a expressão HISTORIOGRAFIA E HISTORIADORES PARAIBANOS (que sob rigor semântico limitaria sobremaneira, de forma inadequada, o tema em tela), como sendo a HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA E HISTORIADORES DA PARAÍBA(a qual, assim posta, permite uma abordagem mais conveniente da questão).

Dessa maneira, não me limitarei aqui apenas a autores nascidos no Estado da Paraíba e que se dedicaram à História, mais particularmente, à sua História. Noutras palavras, quero dizer que, por um lado, excluirei autores paraibanos de nascimento que se dedicaram à História de outras plagas, tais como Carlos Eugênio Porto, autor do importante ROTEIRO DO PIAUÍ [1. ed., Rio de Janeiro, 1955, 2. ed., Rio de Janeiro, 1974] (e aqui faço a discriminação de todas as edições existentes, que não lerei, porque o tempo é exíguo, prometendo registrar no trabalho posterior que prometi elaborar) mas, por outro lado, computarei aqui muitos outros autores nascidos fora da Paraíba e que escreveram sobre a História desta terra, como o ilustrado paulista J(oão). F(ernando)., [ou ainda, Yan] de Almeida Prado, autor de uma discutível obra encomendada pelo jornalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, sob o título de a CONQUISTA DA PARAÍBA (SÉCULOS XVI A XVIII) (São Paulo, 1964), bem como autor de outro livro bem mais apreciado, sob o título de PERNAMBUCO E AS CAPITANIAS DO NORTE DO BRASIL (1530-1630): HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA [São Paulo, 1939-1942, 4 t.].  Ademais também não fará aqui a menor diferença se as obras em questão versam com exclusividade ou com predominância ou apenas minoritariamente sobre a Paraíba, cabendo, no caso, usar o bom sendo para incluí-las nessa exposição, mediante critério, por excelência, do valor historiográfico.

Em terceiro lugar, seguindo a forma preconizada por José Honório Rodrigues, usarei também aqui como critério de inclusão dos diversos autores e suas respectivas obras, todavia sem usar de rigor absoluto, a “distinção entre documento histórico e historiográfico”. Este último, evidentemente, é o que se aplica neste nosso tema, entretanto, como também assinalou o mesmo historiógrafo acima citado, nem sempre é simples de fazer tal distinção, já que “todo documento historiográfico é histórico, mas nem todo documento histórico é historiográfico”. Assim, parafraseando o mesmo José Honório Rodrigues, pode-se dizer que, com relação à Paraíba, a crônica anônima abreviadamente conhecida como o SUMÁRIO DAS ARMADAS “é, por exemplo, documento histórico, fonte principal de determinado período porque seu autor o escreveu (em boa parte), enquanto os fatos se sucediam, e é documento historiográfico, com uma construção elaborada do passado e do seu presente”.

Em quarto lugar, considero que para se planejar um estudo historiográfico, no caso um estudo historiográfico da Paraíba, entendendo-se aqui a historiografia como a história da história, é de particular importância que tal estudo se insira em um modelo coerente de periodização – uma das coisas mais difíceis em História, segundo a abalizada opinião, entre outros, do Prof. José Pedro Nicodemos – modelo este que, na prática, funcionará como um roteiro sistemático e abrangente da obra que se pretende elaborar. Nesta específica exposição, contentar-me-ei com apenas traçar um pálido esboço para um estudo historiográfico da Paraíba com as características até agora delineadas, aproveitando para tanto, inclusive, roteiros sistemáticos (ou modelos de periodização) preexistentes de aceitável validade.

Em quinto lugar, não cuidarei nesta exposição, exceto em condições excepcionais, de documentos manuscritos, particularmente os administrativos, nem tampouco de catálogos impressos de documentos manuscritos. Tampouco cuidarei de bibliografias.

Em sexto lugar, por razões pouco adequadas e decerto vulneráveis porém, aqui, até certo ponto plausíveis, considerando ainda que este trabalho se apresenta na prática apenas como uma nota prévia de um estudo historiográfico mais abrangente que esta incumbência a mim confiada neste Ciclo de Debates estimulou a desenvolver e a publicar em futuro próximo, resolvi não incluir no final deste trabalho as necessárias referências bibliográficas que, certamente, não dispensarei na sua versão definitiva, entretanto, ao longo deste texto, indicarei muito sucintamente as edições das obras aqui registradas.

Finalmente, como sétima e derradeira premissa metodológica, sabendo que a HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA não é privilégio exclusivo dos HISTORIADORES PARAIBANOS, ou seja, dos autores nativos deste atual Estado da República, anterior Província do Império e antiga Capitania da Colônia, também não será supérfluo, num trabalho desta natureza, o assinalamento da naturalidade desses autores, bem como outros eventuais dados interessantes das suas respectivas identidades, sempre que oportuno.

Isto posto, desenvolverei a partir de agora um esboço historiográfico da Paraíba dando ênfase, propositadamente, ao primeiro século da nossa História e tentando, na medida do possível, preencher algumas das várias lacunas gritantes, para não falar de outras tantas incorreções e imprecisões que se costumam ler em determinados ensaios historiográficos já tão repetitivamente divulgados, apesar de suas carências metodológicas.

 

HISTORIOGRAFIA DA CONQUISTA E DA COLONIZAÇÃO INICIAL DA PARAÍBA

 

Levando-se em conta, por um lado, a utilização do idioma português em prosa como meio de comunicação e, por outro lado, levando-se em conta o universo da Paraíba como matéria exclusiva de abordagem temática, a historiografia desta terra se inicia, na prática, com uma crônica sem data declarada, da autoria de um certo jesuíta anônimo, testemunha presencial de boa parte dos fatos por ele relatados, versando sob as várias tentativas de conquistas da Paraíba e abrangendo as ocorrências a elas pertinentes entre 1574 e 1587, cujo título completo é SUMÁRIO DAS ARMADAS QUE SE FIZERÃO, E GUERRAS QUE SE DERÃO NA CONQUISTA DO RIO PARAHIBA, ESCRIPTO E FEITO POR MANDADO DO MUITO REVERENDO PADRE EM CHRISTO O PADRE CHRISTOVÃO DE GOUVÊA, VISITADOR DA COMPANHIA DE JESUS DE TODA A PROVINCIA DO BRASIL, doravante  simplesmente denominado   de SUMÁRIO DAS ARMADAS [hoje já com seis edições, porém, para espanto geral, ainda sem qualquer verificação da fidelidade textual aos seus respectivos códices de origem: 1. ed., Rio de Janeiro, 1848; 2. ed., Rio de Janeiro, 1873; 3. ed., Parahyba do Norte, 1909; 4. ed., João Pessoa, 1974; 5. ed., Campina Grande (PB), 1983; 6. ed., Rio de Janeiro, 1996]. Esta crônica tem sido ultimamente cognominada de a “Certidão de Batismo da Paraíba” à semelhança do que ocorrera antes com a famosa carta de Pero Vaz Caminha ao Rei de Portugal, D. Manuel, o Venturoso, por sua vez denominada a “Certidão de Nascimento do Brasil”. Mesmo sabendo que, a rigor, o SUMÁRIO DAS ARMADAS, não é cronologicamente a reação mais antiga sobre a Paraíba, aquela comparação entre esta crônica anônima e a carta de Caminha é razoavelmente aceitável, todavia, somente até certo ponto, uma vez que esta carta descreve certos episódios históricos in statu ascendi, em que as fontes do relato foram exclusivamente  os fatos observados pelo missivista à medida que iam acontecendo. Já no caso do SUMÁRIO DAS ARMADAS, embora a mesma característica possa ser observada ao longo da esmagadora maioria do seu texto, houve entretanto algumas ocasiões em que seu autor não somente recorreu a fontes orais e escritas, como também chegou a admitir que leu livros para redigir a sua crônica ao afirmar: “Mas, tornando [eu agora] ao ponto, d’onde me[ad]verti, por dar [até aqui] uma breve relação de cousas que, nos livros que falam do Brasil, não achei escriptas”.

Desta maneira, entre os indícios de várias outras obras que teriam sido consultadas por aquele jesuíta anônimo tive a oportunidade de também averiguar, através de pesquisa pessoal, a consulta feita por ele a uma outra crônica jesuítica mais antiga, também de autor desconhecido, escrita em espanhol e hoje já duas vezes impressa, chamada HISTÓRIA DE LA FVNDACION DEI COLLEGIO DE LA CAPITANIA DE PERNAMBUCO (1. ed, Porto, 1923, Rio de Janeiro, 1936), cuja redação terminou em outubro de 1576.

Acerca do SUMÁRIO DAS ARMADAS escrevi ultimamente uma alentada crítica de atribuição em três volumes, ainda inédita e em vias de publicação, sob o título de GRAVETOS DE HISTÓRIA. REVISÃO DA CRÍTICA DE ATRIBUIÇÃO DA MAIS ANTIGA CRÔNICA DA PARAÍBA E OUTRAS ACHEGAS HISTÓRICAS CNTEMPORÂNEAS. Neste trabalho, além de muitas “outras achegas históricas contemporâneas”, veio finalmente à luz, através de elementos de crítica interna e externa, não somente a data em que estava sendo redigido o SUMÁRIO DAS ARMADAS (1594), data esta até hoje profusamente controvertida e sem qualquer abordagem metodológica, como também foi possível tornar sem efeito a argumentação básica que levou o ilustre historiador lusitano, padre Dr. Serafim Soares Leite, S.J;, a concluir de forma aparentemente inquestionável que o autor daquela crônica primeva da Paraíba seria obrigatoriamente o padre Simão Travaços, S.J. (nascido em Ferreiros, então bispado de Braga, em Portugal), e não o padre Jerônimo Machado, S.J. (natural da Capitania de São Vicente, no Brasil), os únicos possíveis candidatos à sua autoria. É preciso ainda salientar aqui que o SUMÁRIO DAS ARMADAS jamais foi “Rebatisado [?]” em “1983” com o nome de “HISTÓRIA DA CONQUISTA DA PARAÍBA”, como ultimamente tem sido diversas vezes propalado, de maneira incorreta, em nosso meio. Este título geral espúrio, cuja grafia original e escorreita é HISTÓRIA DA CONQUISTA DO [RIO] PARAHYBA, título este que foi inicialmente utilizado de forma associada e antecedendo o nome verdadeiro desta crônica anônima, não tem a menor importância para a identificação do SUMÁRIO DAS ARMADAS e, na realidade, foi cunhado quase um século e meio antes de “1983”, ou seja, no ano de 1848, por José Feliciano de Castilho Barreto e Noronha, responsável que foi pela sua primeira edição no Rio de Janeiro. Melhor, portanto, será esquecer aquele título geral espúrio que só serve para confundir a cabeça dos menos avisados, da mesma forma que, felizmente, já foram esquecidos outros seis diferentes títulos sugeridos no século passado para esta mesma crônica anônima (estes últimos de caráter substitutivo e não associativo, o que foi mais grave), com osquais o grande historiador Francisco Adolpho Varnhagen parecia, ao longo do tempo, estar querendo dificultar o leitor interessado a identificação do SUMÁRIO DAS ARMADAS, já que este autor sorocabano, sem qualquer referência prévia ao seu verdadeiro nome, teimava em chamá-la, ora de RELAÇÃO DA TOMADA DA PARAÍBA (1851), ora DA CONQUISTA DO RIO PARAHIBA (1854), ora JORNADA E CONQUISTA DA PARAHIBA (1874), ora GUERRAS DO RIO PARAHIBA (1877), ora CONQUISTA DA PARAHIBA, 1587 [sic] (1877), ora DA CONQUISTA DA PARAHIBA (1877). Registre-se ainda aqui que devo em breve preparar uma edição crítica e definitiva do SUMÁRIO DAS ARMAAS incluindo as transcrições diplomáticas dos dois apógrafos seiscentistas desta crônica, cuja íntegra é totalmente desconhecida do público leitor do Brasil em que pese, como já ficou dito, o fato de esta obra já possuir seis edições entre 1848 e 1996.

Considerando-se ainda como referência básica a utilização do idioma português em prosa como meio de comunicação, embora sem exclusividade temática para  o universo da Paraíba, não é possível deixar de assinalar aqui, para surpresa de alguns, dois importantes escritos do padre Joseph de Anchieta, S.J. (canarinho de Tenerife), ambos anteriores à redação do SUMÁRIO DAS ARMADAS, ambos do ano de 1584. Estes escritos, embora extremamente superficiais, pois registram fragmentos históricos brevíssimos do processo da conquista da Paraíba, nem por isso são negligenciáveis.

No primeiro texto o padre Joseph de Anchieta, S.J., escreveu apenas o seguinte: “No ano de 1581 viera em companhia de Frutuoso Barbosa, que vinha povoar o rio da Paraíba, três frades do Carmo e dois ou três do S. Bento a Pernambuco.  Mas como não se povoou a Paraíba, não fizeram mais que prègar e confessar sem fazer mosteiro. Veio também em sua companhia um de S. Francisco que também prègou algum tempo em Pernambuco e tornou-se para o reino”. Este primeiro excerto pertence à EMFORMAÇÃO DO BRAZIL E DE SUAS CAPITANIAS. [1. ed., Rio de Janeiro, 1844; 2. ed., Rio de Janeiro, 1886; 3. ed., Rio de Janeiro, 1886; 4. ed., Rio de Janeiro, 1933; 5. ed., São Paulo, 1964; 6. ed., Belo Horizonte/São Paulo, 1988].

Já no segundo texto o padre Joseph de Anchieta, S.J., escreveu: “Por todo o tempo que dursou a guerra da Paraíba [até este ano de 1584] feita por Diogo Flores [de Valdez], comandante das tropas reais, os nossos pades, todos os dias, em preces e ladainhas, rogavam a Deus onipotente a vitória dos Portugueses. Por essas preces, a divina bondade não só lhes concedeu a princípio a desejava vitória, como também mais duas, ou três vezes os aniou com o mesmo triunfo. Continuando o ataque ao reino por parte da armada, com cerco tão apertado oprimiram o forte dos Cristãos [forte de São Felipe e São Tiago], que quasi mortos de fome se viram obrigados a se alimentar de carne de cavalo. Com o favor de Deus, desta vez alcançaram a vitória”.

Este segundo excerto pertence à BREVE NARRAÇÃO DAS COISAS RELATIVAS AOS COLEGIOS E RESIDENCIAS DA COMPANHIA NESTA PROVINCIA BRASILICA, NO ANO DE 1584 [1. ed., Rio de Janeiro, 1897; 2. ed., São Paulo, 1900; 3. ed., 1933; 4. ed., Belo Horizonte/São Paulo, 1988.]. Estes dois excertos, quando confrontados ao SUMÁRIO DAS ARMADAS servem também para mostrar o estreito intercâmbio de notícias que existia já naquele tempo entre os diversos Colégios e Residências da Companhia de Jesus. Quanto ao último excerto, em particular, diga-se que o jesuíta anônimo, autor do SUMÁRIO DAS ARMADAS, confirmou mais tarde aquela notícia do padre Joseph de Anchieta, S.J., segundo a qual aqueles milicianos do efêmero forte de São Felipe e São Tiago tiveram que comer carne de cavalo para não morrer de fome.

Com toda a segurança, é ainda daquele mesmo ano de 1584 a mais antiga obra referente com exclusividade à Paraíba, a qual, entretanto, foi redigida em espanhol e em versos. Trata-se de um interessantíssima crônica sobre uma das tentativas de conquista da Paraíba, da autoria de Juan Peraza, soldado espanhol do General Diogo Flores de Valdez, cujo título é RELACION CIERTA Y VERDADERA QUE TRATA DE LA VICTORIA Y TOMA DE LA PARAYVA, QUE EL ILUSTRE DIOGO FLORES DE VALDEZ TOMÓ COM LA ARMADA DE SUA MAGESTAD REAL, DE QUE LHE POR CAPITAN GENERA EM LA JORNADA DE MAGALLÁNES Y GUARDA DE LAS INDIAS. CUENTA COMO CORRIENDO LA COSTA DEL BRASIL HALLÓ UN PUERTO QUE LOS FANCEZES TENIAM TOMADO Y ALLI ESTABAN ELLOS FUERTES, Y DE COMO SE LO GANÓ Y QUEMÓ LAS NAVES Y CASAS QUE TENIAM, COMO LO CUENTA LA OBRA MAS LARGO [1. ed., Sevilla, 1584; 2. ed., Madrid, 1880].

O mestre João Capistrano Honório de Abreu conheceu esta crônica e chegou a sumariar seu conteúdo reproduzindo alguns poucos versos seus sem, todavia, explicitar-lhe o longo título. Embora essa crônica em versos de Juan Peraza seja muito raramente registrada por igualmente raros autores, seu título ou seu texto integral, que consegui afinal coligir, bem como sua própria existência continuam muito pouco conhecidos e jamais vi uma citação por parte dos chamados especialistas em estudos historiográficos da Paraíba. Aparentemente, o jesuíta anônimo, autor do SUMÁRIO DAS ARMADAS, também não conheceu esta crônica em rimas de Juan Peraza, publicada em Sevilha em 1584.

Sem entrar no mérito da respectiva apreciação crítica também não se pode deixar de assinalar aqui uma obra jesuítica da autoria do padre Fernão Guerreiro, S.J. (natural de Almodovar, Portugal), que, embora não conhecendo o texto do SUMÁRIO DAS ARMADAS e baseando-se em informações outras também de origem jesuítica, relatou um determinado feito heróico não registrado nesta última crônica anônima, a qual teve como protagonista um dos padres da Companhia de Jesus, aí não identificado, que acompanharam uma das expedições de conquista da Paraíba, sob as ordens do Ouvidor Geral Martim Leitão. A referida obra do padre Fernão Guerreiro, S.J., é a RELAÇAM ANNAL [sic] DAS COUSAS QUE FEZERAM OS PADRES DA COMPANHIA DE JESUS, NAS PARTES DA INDIA ORIENTAL, 7 NO BRASIL, ANGOLA, CABO VERDE, GUINE, NOS ANNOS DE SEISCENTOS 7 DOUS 7 SEISCENTOS 7 TRES, 7 DO PROCESSO DE CONVERSAM, 7 CHRISTANDADE D’AQUELLAS PARTES, TIRADA DAS CARTAS DOS MESMOS PADRES QUE DE LÁ VIERAM. PELO PADRE FERNAM GUERREIRO DA MESMA COMPANHIA, NATURAL DE ALMODOUVAR DE PORTUGAL [1. ed., Lisboa, 1605; 2. ed., Coimbra, 1930-1942, 3 t.]. Muitos e muitos anos mais tarde, tanto o Senador Cândido Mendes de Almeida quanto o padre Dr. Serafim Soares Leite, S.J., fizeram referência ao tal feito heróico (e fantástico), a respeito do qual este último autor jesuíta se mostrou menos crédulo que o seu antecessor leigo Tive também a oportunidade de tecer alguns comentários críticos sobre aquele episódio heróico nos GRAVETOS DE HISTÓRIA..., atrás assinalados.

Outra obra extremamente importante para este período e que passou mais de trezentos e cinqüenta anos inédita e sem tradução para o português é a de um autor franciscano, frei Manuel da Ilha, O.F.M. [nascido em Portugal], que, mesmo sem ter vindo ao Brasil porém baseado em documentação da sua Ordem, escreveu no ano de 1621, em latim, a NARRATIVA DA CUSTÓDIA DE SANTO ANTÔNIO DO BRASIL: 1584/1621 (DIVI ANTONII BRASILIAE CUSTODIAE ENARRATIO SEU RELATIO NUMERIQUE DOMORUM ET DOCTRINARUM QUAE IN ELLA SUNT NECNON ALIARUM RERUM NARRATIONIS DIGNARUM, ETC.). [1. ed., Petrópolis (RJ), 1975]. Nesta obra muitas informações de capital importância para a Paraíba podem ser colhidas, entre as quais o esclarecimento das circunstâncias e da data em que Frutuoso Barbosa construiu o forte do Inobi, sob a invocação de Santa Margarida, bem como a em que também construiu a primeira versão arquitetônica do forte do Cabedelo ambos no ano de 1589 e, neste último caso, ficam assim totalmente retificadas tantas opiniões equivocadas e até hoje perpetuadas repetitivamente para as novas gerações, inclusive uma obra didática local bastante difundida que indica o ano de “1586” para o levantamento do forte do Cabedelo. Registre-se, ainda, como ilustração adicional, que na NARRATIVA DA CUSTÓDIA DE SANTO ANTÔNIO DO BRASIL: 1584/1621 existe uma importante informação sobre um ataque de corsários franceses à Capitania da Paraíba em 1597, a qual fica em parte complementada por outra obra que citarei logo adiante, editada em inglês por Richard Hakluyt.

Existe ainda uma outra crônica jesuítica anônima que, por sua vez, traz uma pequena, porém, valiosa informação relativa aos primeiros anos da colonização da Capitania da Paraíba (acerca da população branca e escrava, além do número de engenhos até então aí levantados), informação esta que permaneceu inédita por quase quatro séculos. Trata-se do manuscrito quinhentista da Biblioteca da Real Academia de la Historia, de Madrid, conhecido como o Manuscrito de Madrid (redigido em 1590), para diferenciá-lo de outro códice análogo pertencente à Biblioteca da Universidade de Coimbra. O Manuscrito de Madrid tem o seguinte título: DE ALGUÃS COUSAS MAIS NOTAVEIS DO BRASIL E DE ALGUNS COSTUMES DOS INDIOS [1. ed., Rio de Janeiro, 1966]. Graças a pesquisas do padre Dr. Serafim Soares Leite, S.J., esta crônica é atribuída atualmente ao padre Francisco Soares, S.J., nascido em Ponte de Lima, Portugal, e que morou no Brasil, mas não conheceu a Capitania da Paraíba.

A obra que se segue e que já foi superficialmente antecipada há pouco, tem a particularidade de ter sido publicada em inglês em 1600 e o documento  (carta) nela contido, que nos interessa mais de perto, foi produzido originalmente em português no dia 20 de agosto de 1597 por Feliciano Coelho de Carvalho, Governador da Capitania da Paraíba, que o destinava ao Rei Felipe II da Espanha [I de Portugal], entretanto, esta carta, de caminho para o Reino, veio a ser interceptada por corsários ingleses que, levando-a à Inglaterra, aconteceu de ser vertida e publicada em inglês por Richard Hakluyt numa obra extremamente famosa e rara. Esta carta relata com detalhes um relevante episódio dos primórdios da colonização da Paraíba, ou seja, um poderoso ataque de uma armada francesa que em 1597 foi repelida pela reação desassombrada do até aqui anônimo e então Capitão do forte do Cabedelo, o qual pagou com a própria vida o fato de ter conseguido tão valente façanha. Nos GRAVETOS DE HISTÓRIA ... consegui demonstrar a identificação, sem sombra de dúvida, deste incógnito herói da Paraíba, cujo nome sai agora em primeira mão, ou seja Capitão Antonio Gonçalves Manaya, cujo posto veio a ser em seguida preenchido pelo seu genro (casado com D. Maria Manaya), o futuro herói e não menos aguerrido Capitão João de Mattos Cardoso e não “Francisco Cardoso de Matos”, como tem sido infelizmente chamado de forma estropiada ao longo de sucessivas reimpressões de uma conhecida obra didática sobre a Paraíba. Aquela carta que, a seu turno, também não revela o nome do falecido Capitão do forte do Cabedelo, receu em inglês o título de “A speciall letter written from Feliciano Cieza [sic, leia-se “Coelho”] de Carvalsho [sic, leia-se “Carvalho”] the Governor of Parajua [“Paraíba”] in the most Northerne part of Brasil, [20, August], 1597, to Philip the second King of Spaine, answering his desire touching the conquest of Rio Grande [do Norte], with the relation of the besieging of the Castle of Cabodelo [“Cabedelo”] by the frenchmen, and of the discoverie of a rich silver mine diverse other important matters”.

A monumental obra de Richard Hakluyt onde este documento foi inserido, já então em segunda edição, tem o seguinte título: THE PRINCIPAL NAVIGATION, VOIAGES, TRAFFIQVES AND DISCOUERIES OF THE ENGLIS NATION,MADE BY SEA OR OUER-LAND, TO THE REMOTE, AND FARTHEST DISTANT QUARTERS OF THE EARTH, AT ANY TIME WITHIN THE COMPASSE OF THESE 1500, YEERES [2. ed., London, 1598-1600, 3 v.; 3. ed., Londres, 1812; 4. ed., Edinburgh, 1885; 5. ed.,Glasgow, 1904; 6. ed., London, 1928].

Existe ainda uma edição da mesma carta do Governador Feliciano Coelho de Carvalho vertida para o idioma francês e publicada por Paul Louis Jacques Gaffarel em HISTOIRE DU BRÉSIL FRANÇAIS AU SEIXIÈME SIÈCLE, obra esta que por motivos, no mínimo curiosos, tanto quanto eu saiba, ainda não foi traduzida para o português [1. ed., Paris, 1878].

Não posso também deixar de assinalar aqui a CORRESPONDENCIA DE DIOGO BOTELHO (GOVERNADOR DO ESTADO DO BRAZIL) (1602-1608) publicada no início deste século que se finda [1. ed.,  1910] que governou esta Colônia fixando residência na vila de Olinda, Capitania de Pernambuco, correspondência esta coligida na Torre do Tombo, em cópia paleográfica, e publicada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Neste acervo muitas notícias bastante valiosas e de particular interesse para a Paraíba  no período em tela podem ser aí encontradas, entre as quais a da extinção do forte do Inobi em 1603, por se mostrar completamente supérfluo àquela altura, já que a margem esquerda do rio Paraíba não sofria mais a ameaça dos potiguara, já reduzidos desde 1599.

Também não posso omitir o registro da RELAÇÃO DE AMBRÓSIO DE SIQUEIRA (1605) DA RECEITA E DESPESA DO ESTADO DO BRASIL [1. ed., 1977], documento publicado há pouco mais de duas décadas e que possui informações preciosas para a Capitania da Paraíba, particularmente do governo de Feliciano Coelho de Carvalho.

De capital interesse para o período que estou aqui enfeixando é preciso assinalar duas obras que hoje em dia, depois das sólidas argumentações do mestre José Antônio Gonsalves de Mello (Neto) em 1984, devem ser atribuídas sem receio ao mesmo autor, o Sargento-mor da Costa do Brasil Diogo de Campos Moreno, apesar de até então, a segunda dentre elas ter precisado figurar sob a condição de autoria proposta, embora de muito elevada probabilidade. Esta segunda obra, redigida “em 1612 ou, no máximo, no ano de 1613”, segundo Helio Vianna, cujo texto, ainda manuscrito, sofreu várias alterações entre 1625 e 1627, é a mais conhecida delas e tem um capítulo referente à Capitania da Paraíba, onde o autor oferece valiosas informações coevas sobre a nossa terra. No manancial desta obra, quando ainda manuscrita, muito se abeberou o historiador Francisco Adolpho Varnhagen no ano de 1839. Sua primeira publicação integral foi feita há não muitos decênios em terra estranha (Estados Unidos) pelo benemérito Engel Suiter, tendo que se esperar mais meia década para que a primeira publicação integral (e crítica) brasileira fosse dada a lume por Helio Vianna. Estou falando do LIVRO QUE DÁ RAZÃO DO ESTADO DO BRASIL – 1612 [1. ed., 1949; 2. ed., 1955; 3. ed., 1968]. Já a primeira das duas obras de Diogo de Campos Moreno a que me reportei acima, a meu ver a mais importante para o nosso caso e, seguramente, a menos conhecida e menos divulgada não somente na HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA como também na HISTORIOGRAFIA DO BRASIL, já que, ao que tudo indica, nem o enciclopédico historiógrafo José Honório Rodrigues teve notícia dela, parece ser uma redação primitiva do LIVRO QUE DÁ RAZÃO DO ESTADO DO BRASIL – 1612, porém, com texto independente e raramente aproveitado nesta versão mais moderna. Neste texto mais antigo também se vêem valiosíssimas informações sobre a Capitania da Paraíba, cujo capítulo tem a enorme vantagem de arrolar os engenhos da Paraíba no ano de 1609, data em que esta obra foi redigida. Estou falando da RELAÇÃO DAS PRAÇAS FORTES, POVOAÇÕES E COUSAS DE IMPORTÂNCIA QUE SUA MAGESTADE TEM NA COSTA DO BRASIL, FAZENDO PRINCÍPIO DOS BAIXOS OU PONTA DE SÃO ROQUE PARA O SUL DO ESTADO [do Brasil] E DEFENSÃO DELAS, DE SEUS FRUITOS E RENDIMENTOS, FEIA PELO SARGENTO-MOR DESTA COSTA [do Brasil] DIOGO DE CAMPOS MORENO NO ANO DE 1609, publicada há apenas três lustros pelo Prof. José Antonio Gonsalves de Mello (Neto), que lhe adicionou uma excelente introdução crítica [1. ed., 1984]. A propósito, com o intuito de elucidar uma velha questão acerca dos primeiros engenhos de açúcar desta antiga Capitania, publiquei há alguns meses o livro PÁGINAS DE HISTÓRIA DA PARAÍBA – REVISÃO  CRÍTICA SOBRE A IDENTIFICAÇÃO E LOCALIZAÇÃO DOS DOIS PRIMEIROS ENGENHOS DE AÇÚCAR DA PARAÍBA [1. ed;. João Pessoa, 1999], onde fica esclarecido que a segunda fábrica de açúcar desta terra não se quedava, como se pensava, à margem do rio Tibiri e era, na realidade, era o engenho de Santo André.

Temos agora a comentar uma obra sem autoria declarada, da mais alta importância tanto na Literatura Brasileira quanto nas Letras Históricas do Brasil e que foi considerada por José Honório Rodrigues como um dos doze maiores livros escritos sobre o Brasil no Período Colonial, e que estava sendo redigido em 1618 na Capitania da Paraíba, onde o seu mais do que provável autor, o cristão-novo  português Ambrósio Fernandes Brandão chegou a possuir três engenhos, além de um outro na Capitania de Pernambuco. Estamos falando dos DIÁLOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL [cujas edições contendo os seus seis diálogos ou partes são: 1. ed., Recife, 1886-1887 (em periódico); 2. ed., Rio de Janeiro, 1900 (em periódico); 3. ed., Rio de janeiro, 1930 (ou 1. ed. independente em livro); 4. ed., Rio de Janeiro, 1943 (2. ed. independente em livro); 5. ed., Salvador, 1956 (3. ed. independente em livro); 6. ed., Recife, 1962 (4. ed. independente e a 1. ed. integral segundo o apógrafo de Leyden); 7. ed. Recife, 1966 (5. ed. independente em livro e a 2. em ed. integral segundo o apógrafo de Leyden); 8. ed., Rio de Janeiro, 1968 (6. ed. independente em livro); 9. ed. São Paulo/Brasília, 1977 (7. ed. independente em livro);10. ed., Recife, 1999 (8. ed. independente em livro).

O autor desta obra mostra-se um apologista da Capitania da Paraíba sobre o qual versa extensamente. Além disto ele revela uma cultura muito acima da média do seu tempo. Acerca desta matéria, publiquei há alguns anos uma plaqueta intitulada: LEVANTAMENTO DAS PUBLICAÇÕES DOS DIÁLOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL COM ALGUMAS NOTAS SOBRE O SEU MAIS DO QUE PROVÁVEL AUTOR [1. Ed., João Pessoa, 1994]. Cumpre ainda dizer, mais uma vez, que no ano de 1618 jamais existiu uma edição dos DIÁLOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL, como tem sido erroneamente divulgado em mais de uma obra paraibana. Esta data de 1618, não custa repetir, corresponde ao ano em que estava sendo redigida esta obra que, aliás, só começou a ver a letra de forma, ainda de maneira incompleta, no ano de 1849, no mesmo periódico (ÍRIS) e pelo mesmo editor, José Feliciano de Castilho Barreto e Noronha, que um ano antes havia publicado a primeira edição do SUMÁRIO DAS ARMADAS. Em paralelo, diferentemente do que tem sido erroneamente divulgado reiteradas vezes nesta terra, a edição de 1966 dos DIÁLOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL também não é a segunda edição, mas sim a nona edição geral desta obra ou a sétima edição contendo os seis diálogos que a compõem ou a quinta edição desta obra de forma independente (livro) ou a segunda edição integral desta obra, segundo o apógrafo de Leyden, mais completo que o apógrafo da Biblioteca Nacional de Lisboa, que serviu para outras edições.

Existe ainda uma excelente relação escrita em 1630 por um piloto português residente na Cidade Felipéia de Nossa Senhora das Neves (atual Cidade de João Pessoa), a respeito da cabeça da Capitania da Paraíba, relação esta que foi descoberta na Biblioteca Nacional de Madrid por Francisco Adolpho Varnhagen, que se encarregou de publicá-la mais tarde. Trata-se da DESCRIÇÃO DA CIDADE, E BARRA DA PARAHIBA DE ANTÕNIO GONÇALVES PASCHOA, PILOTO NATURAL DE PENICHE, QUE HÁ VINTE ANNOS QUE RESIDE NA DITA CIDADE [1. ed., Viena d’Áustria, 1871; 2. ed., Parahyba do Norte, 1911].

 

HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA RELATIVA AO PERÍODO HOLANDÊS NO NORDESTE DO BRASIL

 

Ao longo deste recorte temporal eu não poderia me contentar, evidentemente, com a menção isolada à apenas uma obra que representaria todo este período, qual seja uma bastante conhecida relação de Elias Herckmans, a exemplo do que já tenho visto noutros estudos historiográficos da Paraíba, mesmo porque não concordo com o fato de iniciar esta fase da historiografia colonial da Paraíba com o citado escrito do “Poeta Aventureiro”.

Por outro lado, considero de boa norma, tratando-se deste específico período, fazer confrontar, sempre que possível, obras de autores do partido neerlandês a obras de autores do partido ibero-brasileiro. Ademais, a rigor, o período holandês na Paraíba não começa com o guante que eles impuseram a esta Capitania durante vinte anos a partir do apagar das luzes de 1634. Começa, na verdade, nove anos antes disto, em 1625, quando a esquadra holandesa de socorro à Bahia, comandada pelo General Boudewijn Hendrick-zoon, tendo chegado ali tarde demais, retornou até a altura da Baía da Traição na Capitania da Paraíba, onde fundeou a 21 de junho de 1625 para fazer aguada e tratar dos doentes que trazia a bordo, aí permanecendo até 01 de agosto de 1625 , tendo promovido não poucos estragos nesta terra mas também com perdas sofridas. Esta arribada fez com que a Paraíba, depois da Bahia, viesse a ser a primeira Capitania a sofrer as conseqüências das invasões holandesas no Brasil, antes mesmo da Capitania de Pernambuco em 1630. De tudo isto ocorrido em 1625 na Paraíba o padre Bartolomeu Guerreiro, S.J. (por sinal, irmão biológico do padre Fernão Guerreiro, S.J., acima citado), do lado português, deu bom testemunho na sua JORNADA DOS VASSALOS DA COROA PORTUGUESA [1. ed., Lisboa, 1625; 2. ed., Rio de Janeiro, 1860; 3. ed., Rio de Janeiro, 1966]. Já do lado neerlandês este episódio (e tantos outros acontecidos até o ano de 1636), foi detalhadamente relatado, à luz de documentos oficiais, por Joannes de Laet, na sua HISTÓRIA OU ANNAES DOS FEITOS DA COMPANHIA PRIVILEGIADA DAS INDIAS OCCIDENTAIS DESDE O SEU COMEÇO ATÉ AO FIM DO ANNO DE 1636 POR JOANNES DE LAET, DIRETOR DA MÊSMA COMPANHIA (Historie Ofte Iaerlijck Verhael van de Varrichtinghen der Georctroyeerde Weft-indifche Compagnie, Zedert haer Begin tot het eynde van’t jaer fefthien-hondert fes-em-dertich; Begrepen in Derthien Boecken, Ende met verfcheyden koperen Platen verciet:Befch-reven door IOANNES DE LAET Bewint-hebber der felber Compagnie) [1. ed., Leyden, 1644; 2. ed., Rio de Janeiro, 1916-1625, 2 t.; 3. ed., Haia, 1931-1937, 4 v].

Desde muito cedo os “flamengos” tiveram razoável conhecimento sobre a Paraíba através de inúmeros relatórios, que se sucederam ao longo do tempo. Ao que parece, o mais antigo deles é de um judeu-português estabelecido em Amsterdã, chamado José Israel da Costa, que organizou uma relação de engenhos das Capitanias de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba (indicados apenas pelos nomes dos seus respectivos donos), no ano de 1623 (aparentemente mais tarde), a qual foi anexada a posteriori a um memorial apresentado aos Estados Gerais dos Países Baixos, sob o título AÇÚCARES QUE FIZERAM OS ENGENHOS DE PERNAMBUCO, ILHA DE ITAMARACÁ E PARAÍBA [ ed., Recife, 1968; 1. ed., Recife, 1981].

Por sua vez, ainda muito precocemente surgiu uma MEMÓRIA APRESENTADA AOS SENHORES DO CONSELHO DESTA CIDADE DE PERNAMBUCO, SOBRE A SITUAÇÃO, LUGARES, ALDEIAS E COMÉRCIO DA MESMA CIDADE, BEM COMO DE ITAMARACÁ, PARAÍBA E RIO GRANDE [do Norte] SEGUNDO O QUE EU, ADRIAEN VERDONCK, POSSO ME RECORDAR. ESCRITA EM 20 DE MAIO DE 1630 [1. ed., Recife, 1901; 2. ed., Recife, 1949; 3. ed., São Paulo, 1977; 4. ed., Recife, 1981].

No início de dezembro de 1631 uma poderosa armada neerlandesa, oriunda da Capitania de Pernambuco, que estava por eles invadida desde 1630, sofreu um grande revés ao atacar a Capitania da Paraíba com o objetivo de conquistá-la. Do lado holandês, entre as poucas fontes ou obras básicas que registram este episódio, incluindo o texto acima referido de Joannes de Laet, figura um importantíssimo livro escrito por testemunha presencial do feito, o alemão Ambrósius Rischshoffer (natural de Estrasburgo), que em português recebeu o título de DIÁRIO DE UM SOLDADO DA COMPANHIA DAS ÍNDIAS OCCIDENTAIS (1629-1632), mas que em alemão chamou-se Brassiliannifchund Weft Indianifch Reiffe Refchrelbung (ou, literalmente, Descrição de Viagem ao Brasil e às Índias Ocidentais), [1. ed., Estrasburgo, 1677; 2. ed., Recife, 1897; 3. ed., Haia, 1930; 4. ed., Recife,1977; 5. ed., São Paulo, 1978].

A este depoimento precioso do lado holandês se contrapõe um outro, raríssimo, até agora inaproveitado, na prática, na HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA e na HISTORIOGRAFIA DO BRASIL,  também de testemunha presencial, porém do lado português, cujo autor é frei Paulo do Rosário, O.S.B. (natural da Cidade do Porto), e cuja obra valiosíssima estou republicando em edição crítica. Seu título é RELAÇAM BREVE, E VERDADEIRA DA MEMORAVEL VICTORIA, QUE OUUE O CAPITÃO MÔR DA CAPITANIA DA PARAIBA ANTONIO DE ALBUQUERQUE, DOS REBELDES DE OLANDA, QUE FAÕ VINTE NÁOS DE GUERRA, 7 VINTE 7 FETE LANÇCHAS; PRETENDERÃO OCCUPAR EFTA PRAÇA DE FUA MAGETTADE, TRAZENDO NELLAS PERA O EFFEITO DOUS MIL HOMENS DE GUERRA EFCOLHIDOS A FORA A GENTE DO MAR [1. ed., Lisboa, 1632]. A respeito da importância desta obra na historiografia do período holandês no Brasil publiquei, recentemente, uma plaqueta com o título O FRACASSO HOLANDÊS NA CAPITANIA DA PARAÍBA EM 1631[1.ed., João  Pessoa,1998].

Também do lado português, dizendo também respeito à Paraíba, serve como fonte básica para este e muitos outros fatos relativos ao período holandês entre 1630 e 1638, uma obra da autoria de Duarte de Albuquerque Coelho, publicada originalmente em espanhol, a qual, pouco mais ou menos representa um contraponto daquela outra de Joannes de Laet, cujo título no vernáculo é MEMÓRIAS DIÁRIAS DA GUERRA DO BRASIL: 1630-1638 (Memorias Diárias de la Gverra del Brasil.por discvrso de nveve años, empeçando desde el de M.DC.XXX) [1. ed., Madrid, 1654; 2. ed., Rio de Janeiro, 1855; 3. ed., Recife, 1944; 4. ed., Recife, 1982]. Ainda do lado português também pode funcionar como uma referência básica para a mesma matéria (e muitas outras relacionadas à Paraíba) a NOVA LUSITANIA HISTORIA DA GUERRA BRASILICA do alentejano Francisco de Brito Freyre [1. ed., Lisboa, 1675; 2. ed., Recife, 1977]. Há quem veja esta obra de Francisco de Brito Freyre, pelo menos em parte, influenciada pelo texto da obra anterior. Outra obra básica do partido português é a HISTORIA DA GUERRA DE PERNANBUCO [1. ed. integral, Recife, 1984] do portuense Diogo Lopes de Santiago, mestre de Gramática em Pernambuco No texto ainda inédito desta obra muito se abeberou (com pouco proveito) o vimaranense frei Raphael de Jesus, O.S.B., para redigir o pouco apreciado CASTRIOTO LUSITANO [1. ed., Lisboa, 1679; 2. ed., Paris, 1844; 3. ed., Recife, 1979].

A fase nassovista do período holandês (1637-1644) e que diz igualmente respeito à Capitania da Paraíba, tem entre os principais atores do seu partido, Kaspar van Baerle, mais conhecido pelo nome latinizado de Caspar Baleus ou, no vernáculo, Gaspar Barléu que escreveu em latim (depois traduzido para o alemão, para o holandês e para o português), uma importante obra, embora panegírica e elaborada sob encomenda do próprio João Maurício, Conde Nassau-Siegen, cujo título para nós ficou sendo HISTÓRIA DOS FEITOS RECENTEMENTE PRATICADOS DURANTE OITO ANOS NO BRASIL E NOUTRAS PARTES SOB O GOVERNO DE WESEL, TENENTE-GENERAL DE CAVALARIA DAS PROVÍNCIAS-UNIDAS SOB O PRÍNCIPE DE ORANGE (Casparis Balaei, Rervm per octennivm in Brasília et alibi nuper geftarum, Sub Praefectura Illftriffimi Comitis I. Mavritii, Nassoviae, &c. Comitis, Nunc Vefallae Gubernatoris & Equitatus Foederatorum Belfii Ordd. Fub Avriaco Ductoris, Historia) [1. ed., Amsterdam, 1647; 2. ed., Clèves, 1659; 3. ed., Clèves, 1660; 4. ed., Haia, 1923; 5. ed., Rio de Janeiro, 1940].  

Outra obra do período holandês de interesse para a Paraíba, embora precise ser lida com bastante cuidado em certas passagens, tem por autor Johan Jacob Nieuhof, a qual em português recebeu o nome simplificado de MEMORÁVEL VIAGEM MARÍTIMA E TERRESTRE AO BRASIL (Johan Neuhofs Gedenkweerdige Brasiiaense Zee- em Lant-Reize. Behelzende Al het geen op dezenve is voorgevallen. Beneffens Een bondige befchrijving van gantfch Nererlants Brasil, Zoo van lantfchappen,fteden, dieren,gewaffen, ais draghten, zeden on godsdienft des inwooders: En in zonderheit Een wijtloopig verhael der merkwaardigfte voovallen en gefchiedeniflen, die zich, geduurende zijn negenjarigh verblijf in Brafil, in d’oologen en opflant der Portugefer tegen d’ozen, zich federt het jaer 1640 tot 1649.) [1. ed., Amsterdam, 1682; 2. ed., London, 1703-1704; 3. ed., London, 1732; 4. ed., London, 1744; 5. ed., London, 1767; 6. ed., Berlim, 1773; 7. ed., Amsterdam, 1786-1787; 8. ed., London, 1808-1814; 9. ed., São Paulo, 1942; 10. ed., 1951; 11. ed., Belo Horizonte/São Paulo, 1981].

Entre os documentos holandeses exclusivamente referentes à Paraíba temos o do Dr. Servaes Carpentier, cujo título em português é RELATÓRIO SOBRE A CAPITANIA DA PARAÍBA EM 1635, PELO SR. DR. SERVAES CARPENTIER, CONSELHEIRO POLÍTICO E DIRETOR DA MESMA CAPITANIA (Raport van de Capitania Paraíba – 1635) [1. ed., Leyden, 1644; 2. ed., Rio de Janeiro, 1925; 3. ed., Haia, 1937; 4. ed., 1981; 5. ed., Campina Grande (PB), 1989], e o relatório de Elias Herckmans que também foi Diretor da Capitania da Paraíba, datado de 1639, cujo título em português é DESCRIÇÃO GERAL DA CAPITANIA DA PARAIBA (Generale Beschrjvinge van de Capitania Paraíba) [1. ed., Utrecht, 1879; 2. ed., Recife, 1886; 3. ed., Parahyba do Norte, 1910; 4. ed., João Pessoa, 1959-1964; 5. ed., João Pessoa, 1975; 6. ed., João Pessoa, 1982; 7. ed., João Pessoa, 1982; 8. ed., Recife, 1985; 9. ed., Campina Grande, 1989]

Existem outros dois documentos holandeses onde parte não negligenciável deles se refere à Paraíba. Um deles é da autoria de Adriaen Jacobszoon van der Dussen, Alto e Secreto Conselheiro no Brasil holandês, tendo sido terminado a 10 de dezembro de 1639 e cujo título em português é RELATÓRIO SOBRE O ESTADO DAS CAPITANIAS CONQUISADAS NO BRASIL, APRESENTADO PELO SENHOR ADRIAEN VAN DER DUSSEN, AO CONSELHO DOS XIX NA CÂMARA DE AMSTERDAM, EM 4 DE ABRIL DE 1640 [1. ed., Haia, 1923; 2. ed., Rio de Janeiro, 1947; 3. ed., Recife, 1981]. O outro relatório, datado de 14 de janeiro de 1638 mas certamente iniciado no ano anterior, vem assinado por João Maurício, Conde de Nassau-Siegen, por Matias van Ceulen e por Adriaen Jacobszoon van der Dussen, embora, ao que tudo indica, este último tenha sido o principal responsável pela sua redação. Seu título em português é BREVE DISCURSO SOBRE O ESTADO DAS QUATRO CAPITANIAS CONQUISTADAS, DE PERNAMBUCO, ITAMARACÁ, PARAÍBA E RIO GRANDE (do Norte), SITUADAS NA PARTE SETENTRIONAL DO BRASIL [1. ed., Utrecht, 1879; 2. ed., Recife, 1887; 3. ed., Recife, 1981].

A propósito dos últimos tempos do domínio holandês no Brasil e também interessando à Paraíba deve-se citar aqui uma obra originalmente impressa na Cidade de Paris, em francês, da autoria de Pierre Moreau (HISTOIRE DES DERNIERS TROUVBLES DV BRESIL, ENTRE LES HOLLANDOIS E LES PORTVGAIS, PAR PIERRE MOREAV, NATIF DE LA VILLE DE PARREY EM CHAROLLOIS), a qual, em várias edições vem sendo publicada juntamente com uma relação de Roulox Baro sobre os índios tapuias (RÉLATION DV VOYAGE DE ROVIOX BARO...), traduzida do holandês para o francês pelo próprio Pierre Moreau, a que se segue um escrito adicinal da autoria de Claude Barthélemy Morisot sobre a relação precedente de Roulox Baro (REMARQUES DV SIEVR [Claude Barthélemy] MORISOT SVR LE GOYAGE DE ROVLOX BARO AU PAYS DE TAPUIES). Em português existem edições tanto com os dois primeiros escritos quanto com todos os três e no Brasil seu último título ficou sendo HISTÓRIA DAS ÚLTIMAS LUTAS NO BRASIL ENTRE HOLANDES E PORTUGUESES E RELAÇÃO DA VIAGEM AO PAÍS DOS TAPUIAS[1. ed., Paris, 1651; 2. ed., Amsterdam, 1652; 3. ed., Rio de Janeiro, 1923; 4. ed., Belo Horizonte/São Paulo, 1979].

Sobre a capitulação holandesa e também dizendo respeito à Paraíba a anônima RELAÇAM DIARIA DO SÍTIO, E TOMADA DA FORTE PRAÇA DO RECIFE, RECUPERAÇÃO DAS CAPITANIAS DE ITAMARACÁ, PARAÍBA, RIO GRANDE [do Norte], CIARÁ & ILHA DE FERNAÕ DE NORONHA, POR FRANSIFCO BARRETO MEFTRE DE CAMPO GENERAL DO EFTADO DO BRAFIL, 7 GOUVERNADOR DE PERNAMBUCO [1. ed., Lisboa, 1654; 2. ed., Rio de Janeiro, 1889; 3. ed., Recife, 1979], geralmente atribuído ao Dr Antônio Barbosa Bacelar.

Há ainda uma obra do Século XIX de particular interesse para o período holandês na Paraíba, da autoria do historiador sorocabano Francisco Adolpho Varnhargen, cujo título é HISTORIA DAS LUTAS COM OS HOLLANDEZES NO BRASIL DESDE 1624 A 1654 [1. ed., Vienna d’Áustria, 1871; 2. ed., Lisboa, 1874; 3. ed., São Paulo, 1943; 4. ed., São Paulo, 1945; 5. ed., Salvador, 1955].

Já no Século XX temos inúmeras obras de valor porém me limitarei apenas a duas que também dizem respeito à Paraíba e são de fundamental importância para o domínio holandês no Brasil. Uma delas é da autoria do Prof. José Antonio Gonsalves de Mello (Neto), cujo título é TEMPO DOS FLAMENGOS: INFLUÊNCIA DA OCUPAÇÃO HOLANDESA NA VIDA E NA CULTURA DO NORTE DO BRASIL [1. ed., Rio de Janeiro, 1947; 2. ed., (1ª tiragem), Recife, 1978; 2. ed., (2ª tiragem), Recife, 1979; 2. ed., (3ª tiragem), 1979; 3. ed., Recife/Brasília, 1987]. A outra tem como autor Frans Leonard Schalkwijk e seu título é IGREJA E ESTADO NO BRASIL HOLANDÊS: 1630-1654, cujo prefácio é do Prof. José Antonio Gonsalves de Mello (Neto) [1. ed., Recife, 1986].

 

A PARAÍBA NA HISTORIOGRAFIA GERAL DO BRASIL A PARTIR DO SÉCULO XVI ATÉ A SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX

 

Já é hora de volver minha atenção para algumas outras obras deste específico recorte cronológico em questão, as quais poderiam também ser rotuladas como tratados de história e crônicas gerais sobre o Brasil. A mais antiga delas para a HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA é a obra enciclopédica de Gabriel Soares de Souza, natural de Portugal, dada ao público em letra de forma, sob a forma mais completa possível, pelo ilustre historiador sorocabano Francisco Adolpho  de Varnhagen, a quem a HISTORIOGRAFIA DO BRASIL muito deve, também neste particular, por ter ele conseguido editar este livro após esclarecer-lhe a autoria, analisar-lhe o texto e fixá-lo definitivamente através do estudo de muitos dos seus códices existentes em vários países, atribuindo-lhe uma data de redação, atribuindo-lhe não somente um título geral, bem como atribuindo-lhe uma data de redação, ou seja, o ano de 1587 (aliás, o eminente médico e historiador Manuel Augusto Pirajá da Silva, que também editou esta obra, não concordou nem com aquele título nem com a aposição daquela data agregada ao título geral). Sem contar as publicações muito incompletas desta obra, anteriores ou posteriores ao Barão e Visconde de Porto Seguro, as edições segundo a proposição de Francisco Adolpho de Varnhagen têm o título de TRATADO DESCRIPTIVO DO BRAZIL EM 1587, OBRA DE GABRIEL SOARES DE SOUZA, SENHOR DE ENGENHO DA BAHIA, N’ELLA RESIDENTE DEZESSETE ANNOS, SEU VEREADOR DA CAMARA, ETC. [Rio de Janeiro, 1851; Rio de Janeiro, 1879; Rio de Janeiro, 1886; Rio de Janeiro, 1938; Madrid, 1958; Rio de Janeiro, 1971; Rio de Janeiro, 1973; Rio de Janeiro, 1987].

Desta mesma obra, também com seu texto integral ou, melhor dizendo, o recuperado por Francisco Adolpho de Varnhagen, surgiram várias edições com o título de NOTÍCIA DO BRASIL [São Paulo, 1948; São Paulo, 1951; São Paulo, 1974; São Paulo, 1974]. Nesta obra ciclópica de Gabriel Soares de Souza é preciso, entretanto, ler com bastante cuidado a parte que toca à Paraíba, particularmente o seu “CAPÍTULO XII”, onde o autor (proveniente da Bahia, encontrava-se no Reino desde 1584), deu algumas informações incorretas sobre o que lá tinha acontecido recentemente nas lutas de conquista da Paraíba, notícias estas certamente colhidas de segunda mão a partir de algum navegante vindo do Brasil e que teria então chegado a Madrid.

Eis que é chegada a hora de falar sobre o “Heródoto brasileiro” e sua imprescindível obra histórica concluída em 1627, ou seja, Frei Vicente do Salvador, O.F.M. (natural da Bahia), e sua HISTÓRIA DO BRASIL [cujas edições contendo os seus cinco livros ou partes são: 1. ed., Rio de Janeiro, 1889; 2; ed., São Paulo, 1918; 3. ed., São Paulo, 1931; 4. ed., São Paulo, 1954; 5. ed., São Paulo, 1965; 6. ed., São Paulo/Brasília, 1975; 7. ed., Belo Horizonte/São Paulo, 1982].

Antes de vestir o hábito de São Francisco, em 1599, e professado a Ordem Franciscana no dia 30 de janeiro de 1600, frei Vicente do Salvador, O.F.M., havia estudado na Universidade de Coimbra, onde se doutorou in utroque jure, retornando à Bahia em 1587, onde tomou as ordens sacerdotais (clero secular), razão pela qual ele jamaisfoi testemunha ocular da conquista da Paraíba”, como se lê de forma abstrusa em diversas tiragens determinada obra didática sobre a Paraíba. Somente em torno de 1603 ou pouco mais tarde é que o “Heródoto brasileiro” esteve missionando índios nesta terra. Foi com sua experiência pessoal e, principalmente, com o texto manuscrito do SUMÁRIO DAS ARMADAS à vista (além de outra fonte, hoje desconhecida, eventualmente consultada), é que frei Vicente do Salvador, O.F.M., versou sobre a Paraíba. Aliás, como afirmei nos GRAVETOS DE HISTÓRIA... . “Na verdade não há um só capítulo do SUMÁRIO DAS ARMADAS cujo texto não tenha sido aproveitado, ao menos em parte, na redação da HISTÓRIA DO BRASIL do franciscano baiano”. Diga-se ainda que a Paraíba foi extremamente bem aquinhoada pelo “Heródoto brasileiro” na sua HISTÓRIA DO BRASIL. Basta que se leia o “Capítulo Vigésimo Quarto” do seu “Livro Terceiro”. Ademais, no seu “Livro Quarto” este autor trata da Paraíba desde o “Capítulo Terceiro” até o “Capítulo Décimo Sexto”, além do “Capítulo Vigésimo Segundo”, do “Capítulo Vigésimo Quinto” ao “Capítulo Trigésimo Terceiro” (Estão infelizmente perdidos os textos do “Capítulo Vigésimo Sexto” ao “Capítulo Vigésimo Nono” e a parte inicial do “Capítulo Trigésimo”, o “Capítulo Trigésimo Sétimo, o “Capítulo Trigésimo Nono”, o “Capítulo Quadragésimo Primeiro”, e o Quadragésimo Terceiro”. Frei Vicente do Salvador, O.F.M., havia escrito antes, em 1618, uma outra obra, a CRÔNICA DA CUSTÓDIA DO BRASIL, hoje infelizmente perdida, em que certamente também versou sobre a Capitania da Paraíba. De qualquer forma, Frei Manuel da Ilha, O.F.M., conheceu e aproveitou  esta obra para redigir a sua CRÔNICA DA CUSTÓDIA DE SANTO ANTÔNIO DO BRASIL: 1584/1621. Ainda dizendo respeito à HISTÓRIA DO BRASIL do “Heródoto brasileiro” faz-se necessário assinalar aqui, movido pela constatação do que existe de melhor na moderna historiografia paraibana, um excelente trabalho do eminente Prof. José Pedro Nicodemos intitulado A CONTRIBUIÇÃO HISTORIOGRÁFICA DE FREI VICENTE DO SALVADOR [1. ed., João Pessoa, 1971], cujo valor historiográfico, muito menos exaltado do que bem merece, só se rende para os extraordinários “Prolegômenos” com que o mestre Capistrano de Abreu enriqueceu a nossa primeira História do Brasil escrita por um nativo da terra. Desta maneira, a HISTORIOGRAFIA DA PARAIBA e a HISTORIOGRAFIA DO BRASIL, lhe agradecem penhoradamente, caro Prof. José Pedro Nicodemos.

Depois de frei Vicente do Salvador, O.F.M., o primeiro nativo deste País a escrever uma História do Brasil, foi preciso se esperar aproximadamente o transcurso de um século para que surgisse uma nova obra histórica geral do Brasil e, portanto, também contemplando a Capitania da Paraíba. 

Aqui eu me limitarei simplesmente a registrar as obras mais significativas através de suas edições completas, tais como a HISTÓRIA DA AMERICA PORTUGUESA, por Sebastião da Rocha Pitta; O NOVO ORBE SERAFICO BRASILICO, por Antônio de Santa Maria Jaboatão; DESAGRAVOS DO BRASIL E GLORIAS DE PERNAMBUCO, por D. Domingos do Loreto Couto; NOBILIARCHIA PERNAMBUCANA, por Antonio José Victoriano Borges da Fonseca, que é livro de Genealogia e de História, como o é os DESAGRAVOS DO BRASIL E GLÓRIAS DE PERNAMBUCO; COROGRAFIA BRASÍLICA, do padre Manuel Ayres de Casal; HISTÓRIA MILITAR DO BRASIL, desde o ano de 1549, de José Mirales; HISTÓRIA DO BRASIL, Robert Southey; HISTÓRIA DO BRASIL ANTES DE SUA SEPARAÇÃO E INDEPENDENCIA DE PORTUGAL, do Visconde de Porto Seguro; HISTÓRIA DO BRASIL, de Henrich Handelmann; CHRONICA GERAL DO BRAZIL, pelo Dr. Mello Moraes; COMPENDIO DE HISTORIA DO BRASIL, do Padre Raphael Maria Galanti; HISTORIA DO BRAZIL (ILUSTRADA), de Rocha Pombo; CAPITULOS DE HISTORIACOLONIAL, de João Capistrano Honório de Abreu; HISTORIA DO BRASIL, por Pedro Calmon; HISTORIA DO BRASIL, por Helio Vianna.

 

UM POUCO DA HISTORIOGRAFIA GERAL E ESPECIAL DA PARAÍBA A PARTIR DO SÉCULO XVIII ATÉ O TERCEIRO QUARTEL DO SÉCULO XX

 

Arrolarei aqui, ao menos a título de citação, algumas das principais obras básicas e específicas da e para a HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA a partir do Século XVIII até o terceiro quartel do Século XX.

Começarei com a INFORMAÇÃO DADA A SUA MAGESTADE PELO GOVERNADOR DA PARAHYBA DO NORTE FERNANDO DELGADO FREIRE DE CASTRILHO A 9 DE JANEIRO DE 1799 ACÉRCA DE VARIOS OBJECTOS RELATIVOS À MESMA CAPITANIA, pertencente ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Foi este documento que o benemérito Irineu Ferreira Pinto veio a publicar em 1908 no v. I, p. 205-213 das suas DATAS E NOTAS PARA A HISTORIA DA PARAHYBA com o seguinte título por ele próprio alterado: O Governador da Capitania Fernando de Castilho presta a metrópole a interessante narração do estado em que se acha a mesma capitania, importante documento de valor histórico. Resta apenas saber se o texto aí contido corresponde de fato ao documento intitulado Descripção da Capitania da Parahyba do Norte, por Fernando Delgado Freire de Castilho. S.d., fls. 200 a 205 A, constante do volume 1º do “Catalogo da Collecção de Memórias  e outros documentos contidos em 19 volumes conservados na Secção Histórica do Archivo Nacional”. É até possível que estejamos tratando do mesmo documento, entretanto, a HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA não pode mais continuar com esta presunção de duzentos anos de idade, portanto, antes que este ano se encerre desvendarei esta dúvida que outros mais confiantes que eu parecem não tê-la, sem, todavia, haver realizado qualquer pesquisa neste sentido.

Subsídios importantes para a História da Revolução de 1817, com ênfase para a Paraíba podem ser observados numa raríssima obra do padre Joaquim Dias Martins intitulada MARTIRES PERNAMBUCANOS VICTIMAS DA LIBERDADE NAS DUAS REVOLUÇÕES ENSAIADAS EM 1710 E 1817 (existe uma nova edição fac-similar moderna).

Ainda sobre o mesmo tema, na parte que toca também à Paraíba, deve ser mencionada aqui uma importante obra que, principalmente na segunda edição, possui uma extensa introdução e notas do historiador paraibano radicado em Pernambuco, o Dr. Maximiano Lopes Machado. Trata-se da HISTORIA DA REVOLUÇÃO DE PERNAMBUCO EM 1817, pelo Doutor Francisco Muniz Tavares. Ainda sobre o mesmo tema devemos assinalar o DIARIO DA REVOLUÇÃO DE 1817, pelo Sargento-mór Francisco Ignácio do Valle. Cópia do original existente no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi extraída pelo sócio correspondente Frederico Cavalcanti Carneiro Monteiro oferecido ao nosso Instituto.

De grande interesse para a História da Confederação do Equador (1824) na Paraíba são as OBRAS POLITICAS E LITTERARIAS DE FREI JOAQUIM DO AMOR DIVINO CANECA Collecionadas pelo Commendador Antonio Joaquim de Mello em virtude da Lei Provincial Nº 900 de 25 de Junho de 1869 mandadas publicar pelo Exm. Sr. Commendador Presidente da Província Desembargador Henrique Pereira de Lucena, em cujo “Appendice Constantge de Notas” existem valiosos relatos fidedignos até agora praticamente inaproveitados.

Outro importante depoimento de um paraibano, então ainda jovem revolucionário da Praieira, no caso, Maximiano Lopes Machado, é o QUADRO DA REVOLTA PRAIEIRA NA PROVINCIA DA PARAHYBA, cuja primeira edição é extremamente rara.

Temos ainda a excelente CHOROGRAPHIA DA PROVINCIA DA PARAHYBA DO NORTE, por Henrique (Pedro Carlos) de Beaurepaire Rohan, a qual, tendo sido concluída em 1861, somente veio a ser publicada meio século mais tarde, uma única vez e, assim mesmo, não em livro, mas em periódico.

Outra obra muito interessante, de autor paraibano, e que bem revela a sua competência é a MONOGRAPHIA DA CIDADE DA PARAHYBA DO NORTE, CAITAL DA PROVINCIA DO MESMO NOME, por Vicente Gomes Jardim, agrimensor dos terrenos da Marinha da mesma Província.

De qualquer estudo historiográfico da Paraíba não pode deixar de figurar as excelentes NOTAS SOBRE A PARAHYBA, por Irinêo Ceciliano Pereira Joffily, paraibano que, para dá-la à luz em letra de forma, recebeu o estímulo entusiasmado e o prefácio competente do mestre João Capistrano Honório de Abreu. Ainda do mesmo autor e de relevante merecimento para esta terra é a SYNOPSIS DAS SESMARIAS DA CAPITANIA DA PARAHYBA. COMPREHENDENDO O TERRITORIO DE TODO O ESTADO DO MESMO NOME E PARTE DO RIO GRANDE DO NORTE. É de se lamentar que este opúsculo raro e de capital importância para a Paraíba tenha caído no esquecimento e jamais tenha sido reeditado. Enquanto isto, vemos tantas outras obras de valor e prioridade discutíveis sendo reimpressas pelo poder público.

Outro trabalho que merece sempre ser lembrado é a MEMORIA SOBRE OS MELHORAMENTOS DE QUE PRECISA A PROVINCIA DA PARAHYBA, pelo engenheiro de Minas, Dr. Francisco Soares da Silva Retumba.

Quanto à sua importância, o mesmo pode ser dito da obra máxima (e póstuma) do paraibano radicado em Pernambuco, Maximiano Lopes Machado, ou seja, a HISTORIA DA PROVINCIA DA PARAHYBA, que na sua editio princeps recebeu o prefácio de João de Lyra Tavares e, na edição subseqüente um também alentado estudo introdutório do Prof. José Octávio de Arruda Mello.

A seguir, temos outra obra de excelente jaez, cuja apresentação (“Duas Palavras”) do autor, também paraibano, prenuncia suas qualificações de privilegiado garimpeiro de fontes históricas. Seu título é DATAS E NOTAS PARA A HISTORIA DA PARAHYBA, por Irineu Ferreira Pinto, sócio fundador e Bibliotecário do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, cuja edição ficou enriquecida com um estudo introdutório do Prof. José Pedro Nicodemos. Deste mesmo eminente historiador paraibano tem sido pouco lembrados, ultimamente, outros importantes trabalhos seus como A INSTRUCÇÃO PÚBLICA NA PARAHYBA. APONTAMENTOS PARA A SUA HISTORIA ou ainda ALGUMAS NOTAS PARA A HISTORIA DA ORDEM 3.ª DE NOSSA SENHORA DO MONTE DO CARMO DA CIDADE DA PARAHYBA.

De particular interesse para o Estado são os APONTAMENTOS PARA A HISTÓRIA TERRITORIAL DA PARAHYBA por João de Lyra Tavares que, ao coligir em súmulas todos os documentos públicos aí dados à estampa, realizou um trabalho monumental. Esta obra mereceu nos anos sessenta um laborioso índice levantado por Genny da Costa e Silva, com uma introdução do Prof. José Antonio Gonsalves de Mello (Neto), sob o título de SESMEIROS DA PARAÍBA. A propósito, sobre a primeira data de terra concedida em sesmaria na Capitania da Paraíba publiquei há alguns anos uma plaqueta sob o título JOÃO AFONSO PAMPLONA – A RESTITUIÇÃO DO NOME DAQUELE QUE FOI O PRIMEIRO PROPRIETÁRIO DE TERRAS NA CAPITANIA DA PARAÍBA.

Também não se pode deixar de registrar aqui, por suas sobejas qualidades, a excelente obra do areiense José Américo de Almeida, A PARAHYBA E SEUS PROBLEMAS.

Chegando já ao fim deste esboço historiográfico é preciso assinalar, do areiense Horácio de Almeida, um dos maiores historiógrafos deste Estado, a sua HISTÓRIA DA PARAÍBA, saída inicialmente de forma incompleta e depois em edição integral com revisão e ampliação do texto já anteriormente publicado.

Agora, para encerrar esta exposição, aproveito a ocasião para prestar o meu respeito e consideração a todos os consócios deste Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP), tanto os do passado quanto os do presente, nascidos ou não neste Estado, os quais, cada um à sua maneira, contribuíram e vêm contribuindo efetivamente para HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA.

 

· · ·

 

A fala do Presidente:

 

Conforme vimos, o alentado trabalho que o Guilherme d’Avila Lins nos traz é da mais alta significação e ele muito inteligentemente abordou apenas até ao primeiro quartel do século passado, sem falar nos atuais historiadores, até porque a gente só enaltece o historiador quando ele morre. Mas, ainda assim, ele fez uma referência de passagem sobre os atuais sócios do Instituto.

Como debatedor designado, e como vocês já me conhecem, fica dispensada minha auto-apresentação. Assim, passo imediatamente a exercer minha missão.

 

Debatedor: Luiz Hugo Guimarães (Membro do Instituto Histórico, e seu atual Presidente)

 

Como debatedor, minha participação é mais suave, e tentarei evitar a precisão de datas e fontes que foram muito bem postas pelo nosso expositor. Sabemos que num discurso sobre historiografia temos que fazer, como muito  bem fez Guilherme d’Avila Lins.

Sei que no plenário há alguns participantes que estão ouvindo a palavra historiografia pela primeira vez. E o que é historiografia?

A historiografia é a arte de escrever a história. É o estudo histórico e crítico acerca da história e dos historiadores.

Na dimensão do processo histórico, sujeito é quem faz  a história, ou seja, é quem realiza as ações; na dimensão da ciência da história, sujeito é quem produz o conhecimento. Está aí o historiador.

Pela conceituação de Aurélio, a história é a narração metódica dos fatos notáveis ocorridos na vida dos povos, em particular, e na vida da humanidade, em geral.

Não sou historiador. Maximiano Machado também não era, mas se tornou, autodidaticamente. Irineu Joffily, Irineu Ferreira Pinto, também não eram. Não tinham títulos oficiais dessa categoria.  Mas no momento em que a pessoa se afirma examinando documentos e ouvindo relatos ela começa a tornar-se um historiador. O historiador focaliza os fazedores da história, os que por suas ações geram os acontecimentos. A apreciação dos agentes da história ou os episódios por eles gerados nos tornam um historiador, pois, na dimensão da ciência da história, essas pessoas passam a produzir o conhecimento histórico. É o historiador.

Um dos pontos marcantes deste Ciclo de Debates, em boa hora iniciado pelo Instituto, foi a descoberta de grandes vazios na nossa historiografia. Expositores, debatedores e participantes do Ciclo fizeram indicações importantes sobre um vazio detectado na nossa historiografia. Episódios importantes da história paraibana ainda jazem sepultados no esquecimento, virgens de uma apreciação crítica. Alguns desses episódios estão adormecidos pela falta de interesse dos estudiosos, outros pela ausência de fontes primárias, ainda não ao nosso dispor. O Ciclo de Debates espicaçou a nossa curiosidade, estabeleceu desafios, e estou certo de que iniciaremos uma nova etapa na busca de nossa expansão historiográfica.

O que temos visto, conforme acentuou e explicitou nosso expositor desse tema, o historiador Guilherme Gomes da Silveira d’Avila Lins, é uma razoável massa de informações sobre a Província da Paraíba, particularizada nas ocorrências da sua capital, quando ela representou a Província durante anos, conforme a listagem por ele oferecida de obras em que viajantes, religiosos e historiadores narraram em cartas, relatórios e trabalhos os acontecimentos provinciais, desde a sua conquista. Quanto às coisas da Província-Capital, estamos relativamente abastecidos. Foi o que demonstrou o historiador Guilherme d’Avila Lins em sua brilhante exposição.

Como presidente do Instituto, pude examinar a carência relativa da falta da nossa história municipal. Encetei uma campanha junto às prefeituras municipais do Estado – agora são 223 municípios –, sugerindo  que se fizesse alguma coisa para o levantamento da história de cada município. Sugeri até a criação de um Núcleo Histórico e Geográfico no âmbito das Secretarias da Educação de cada município, constituída pelo próprio Secretário, por Diretores de Grupos e Colégios, por intelectuais, pelo padre da freguesia, pelos vereadores, etc. Não haveria ônus para a Prefeitura, a não ser o oferecimento do local de reuniões, papel, lápis e um cafezinho. O Prefeito de Lucena, David Falcão, imediatamente baixou um Decreto organizando um Núcleo com aquele objetivo. E a história já está pronta, só falta publicá-la.

Colocamos à disposição dos prefeitos municipais nosso Instituto, oferecendo um apoio logístico, porque financeiro não temos condições.

Editei um trabalho relacionando os municípios sobre os quais já há alguma coisa escrita, o qual foi distribuído com os presentes. Não é uma relação completa, mas dá uma dimensão das nossas carências. O levantamento foi feito com base nos trabalhos existentes no Instituto e nas informações historiográficas de Horácio de Almeida, Idelete, Waldemar Duarte, e outros. Está incompleto, porque a cada dia estão aparecendo novos trabalhos sobre cidades paraibanas.

Intitulado HISTORIOGRAFIA MUNICIPAL DA PARAÍBA, estou distribuindo com os participantes do Ciclo de Debates um exemplar do trabalho levantado, para receber mais informes sobre a produção histórica dessa área a fim de completar o levantamento feito.

Nem precisa dizer a importância da feitura dos trabalhos sobre cada município, pois com  o levantamento da história de cada um poderemos melhor construir a história completa da Paraíba. A história do Estado tem que ser como um todo, envolvendo os acontecimentos de todas a regiões, de Cabedelo a Cajazeiras.

A professora Joana Neves tem um interessante trabalho intitulado HISTÓRIA LOCAL E CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE SOCIAL, publicado na Revista Saeculum n.º 3, que vale a pena ser compulsado, para facilitar a pesquisa dos trabalhos das diversas comunidades interioranas.

No momento em que o interessado começar a levantar dados sobre sua comunidade, ele está começando a fazer história. A pesquisa deverá ser feita em cima dos acontecimentos dignos de nota ocorridos desde a fundação do povoado, vila ou cidade; as famílias dos fundadores serão personagens importantes na pesquisa da formação do burgo (e aí a Genealogia entra como ciência auxiliar); a política, a economia, as artes, etc. darão a configuração histórica da história local, com sua identidade própria.

Nossa preocupação pela formação da história municipal do interior é prioritária. Tem sido um dos pontos marcantes do nosso Ciclo, levantando para os participantes essa problemática da nossa historiografia. Precisamos fazer uma História da Paraíba completa e para a construção duma história atual teremos que fazer esse levantamento, essa pesquisa nos municípios.

A capital do Estado, desde Felipéia a João Pessoa, já tem um razoável número de trabalhos. Também distribui uma relação listando alguns trabalhos sobre a capital. Diariamente temos recebido aqui no Instituto Histórico pesquisadores agora voltados para o levantamento dos bairros e das ruas da capital. A cidade de João Pessoa cresceu tanto nesses 20 anos, que é preciso dimensioná-la, atualizando-a.

Nós temos oferecido a esses estudiosos e pesquisadores todo o nosso apoio e os estimulamos para que sejam feitos esses trabalhos.

Sobre ruas, recentemente foram publicados dois trabalhos por parte de nossos associados. Um deles foi RUAS DE TAMBAÚ, do historiador Deusdedit Leitão; outro foi AS RUAS ONDE MOREI – 1918-1930, da confreira Carmen Coelho de Miranda Freire. Estou sabendo que Natércia Suassuna Ribeiro Coutinho está concluindo um trabalho muito vasto sobre as ruas da capital, com cerca de 800 páginas.

Posse registrar aqui a listagem que levantei sobre alguns trabalhos que enfocam a nossa capital, como indicativo para consulta. Registraremos à parte uma lista de autores e obras.

Também incluímos no tema em debate nossos historiadores, alguns dos quais foram mencionados pelo expositor Guilherme d’Avila Lins. Mas o tempo se tornou exíguo para esse exame.

Mas quero lembra que o Instituto Histórico teve a iniciativa de criar uma Coleção de Historiadores Paraibanos, publicando monografias sobre os principais historiadores da nossa terra. Já temos lançados 10 plaquetas, que colocamos à disposição dos participantes, ao preço de R$ 3,00 cada.

Os trabalhos já publicados são os seguintes, com seus autores:

 

Maximiano Lopes Machado – Luiz Hugo Guimarães

Coriolano de Medeiros – Deusdedit de Vasconcelos Leitão

José Américo de Almeida – Joacil de Britto Pereira

Horácio de Almeida – Amaury Vasconcelos

Elpídio Josué de Almeida – Fernando Melo do Nascimento

Ademar Vidal – José Octávio de Arruda Mello

José Leal – Balila Palmeira

Manuel Tavares Cavalcanti – Marcus Odilon

Irineu Joffily – Diana Soares de Galizza

Celso Mariz – Dorgival Terceiro Neto

 

Estão programadas mais duas monografias, uma sobre Irineu Ferreira Pinto, a cargo de Humberto Cavalcanti de Mello e outra sobre o Cônego Francisco Lima, a cargo de Waldice Mendonça Porto.

A repercussão dessa Coleção tem sido tão favorável, que a Diretoria resolveu continuá-la e já estão listados os nomes dos historiadores Epaminondas Câmara, Heliodoro Pires, Luís Pinto, Humberto Nóbrega, Antônio Rocha Barreto, entre outros.

 

ANDRADE, Ana Helena Ferreira de;  GARCIA,  Patrícia  Maria    Granville.

                 (Tese). A Evolução urbana de João em Pessoa  em  função   do

                     sistema de transporte urbano: O Bonde. João Pessoa, s/ed.1987.

AGUIAR, Wellington. Cidade de João Pessoa: A Memória do Tempo.     Ed.

            Persona, 1992. Em parceria com MELLO, José Octávio de Arruda

            Uma Cidade de Quatro Séculos. Campina Grande, Grafset, 1985.

BARBOSA, Florentino. Monumentos Históricos e Artísticos da Paraíba.    J.

                     Pessoa. A União Editora, 1953.

BATISTA, Juarez. Caminhos, Sombras, Ladeiras: esboço de papel de cidade

                    De nordeste brasileiro. João Pessoa. A União, 1989.

CAVALCANTI, Archimedes. A Cidade da Paraíba na Época da Independên

                            cia. João Pessoa. A União.

FARIAS, Orion. Paraíba ontem e hoje. João Pessoa. Edit.Univ./UFPB, 1985.

FREIRE, Carmen Coelho de Miranda. História da Paraíba para uso didático

                João Pessoa. Ed. Universal, 1976.

______ ,  Carmen Coelho de Miranda. As ruas onde morei – 1918-1930. Ed.

           Fênix, 1998.

LEITÃO, Deusdedit. Ruas de Tambaú. João Pessoa. SEC, 1998.

MAIA, Benedito. Prefeitos de João Pessoa. João Pessoa. Imprensa Oficial.

­­­­_____, Benedito. Universidade do Ponto de Cem Réis. João Pessoa.

MELLO, José Octávio de Arruda. Os Coretos no Cotidiano de uma Cidade:

               Lazer e classes sociais na Paraíba. João Pessoa. A União, 1990.

MENEZES, José Luiz Mota. Algumas notas a respeito da evolução urbana

                    de João Pessoa. Recife. Pool ed., 1985

PALMEIRA, Balila. Bairro de Miramar: sua história, seus moradores. João

                       Pessoa. Grafisi, 1997.

PARAÍBA, Governo do Estado. João Pessoa: a cidade, o rio e o mar. Rio de

                    Janeiro. Ed. Bloch, 1991.

RODRIGUES, Janete Lins; DROULERS, Martine. João Pessoa: Crescimen-

                        to de uma Capital. João Pessoa. s/ed. 1981.

___________, Walfredo. Dois Séculos da Cidade: Passeio retrospectivo –

                        1870-1930. João Pessoa. Interplan, s/d.

___________, Walfredo. Roteiro Sentimental de uma Cidade. São Paulo. Ed.

                         Brasiliense, 1962.

SOUTO, Jomar Morais de. Itinerário Lírico da cidade de João Pessoa. 2ª ed.

                  Interplan, 1970.

 

Passaremos, agora, aos debates com a participação dos presentes. Já se encontrando inscrito o historiador Marcus Odilon, passo a palavra ele.

 

1º participante:

 

Marcus Odilon Ribeiro Coutinho:

 

Não tenho que fazer qualquer reparo porque todos falaram bem demais, estando todos nós premiados por isso.

O expositor Guilherme da Silveira foi preciso, mas gostaria de acrescentar os  nomes de Luís Pinto, Eudésia Vieira, que também escreveu uma História da Paraíba e falo de Eudésia Vieira porque, além de ser uma mulher já falecida, é filha do município de Santa Rita e José Leal.

Nosso debatedor deu ênfase ao estudo das ruas, dos bairros e que nosso consócio Deusdedit Leitão já tem um trabalho publicado sobre as ruas de Tambaú. Deusdedit publicou sobre a parte mais nobre da cidade, onde ele e a maioria dos sócios moram. Mas quero lembrar ao nosso Presidente que Natércia Suassuna Ribeiro Coutinho tem um trabalho de sete anos de pesquisa. Não foi fácil. Mas inclui não só as ruas da elite, mas até as ruas das favelas, onde vão aparecer nomes de gente que era apenas amiga do vereador. E nomes que nem foram premiados com placa. É verdade que dei alguma colaboração, mínima. Mas a autora está encontrando uma dificuldade imensa para publicar esse trabalho. Fico pensando que ele vai ficar como ficou toda a obra do padre João de Deus. 29 trabalhos, todos inéditos e a essa altura todos perdidos. Apesar de rezar missa para governadores e interventores, nenhum deles teve coragem de mandar A UNIÃO publicar seus trabalhos. Parece-me que esse trabalho de Natércia vai pelo mesmo caminho; são 800 páginas datilografadas. A editora A UNIÃO pediu R$ 19.000,00. É o preço de um carro novo. Temos um romancista João Ribeiro Filho, que é autor de um excelente romance, memorialista, um estilo muito assemelhado a José Lins do Rego, e sabe a dificuldade. Gastou mais em fazer o livro do que em trocar o carro. Salvo engano, ele vendeu o carro para poder editar o livro. De forma, que queria que o Presidente fizesse um apelo em nome do Instituto, se tiver a aprovação dos membros deste Ciclo, para a Universidade, a Editora A UNIÃO, a Secretaria de Cultura, fazer a edição. Desde já, eu posso antecipar que Natércia Suassuna abre mão dos direitos autorais e do que gastou até agora. É um trabalho espontâneo, porque ela quer brindar a Paraíba neste fim de século e fim de milênio, que vai resolver definitivamente a preocupação muito justa que está tendo o Presidente desta Casa, nesta hora, expressa a alguns minutos antes.

 

Luiz Hugo:

 

Já tomei conhecimento do trabalho de Natércia Suassuna e seu também, que também deu uma razoável contribuição ao trabalho; essas dificuldades alcançam a todos. Vejam quanto está custando ao Instituto publicar uma plaqueta das que mencionei, sobre os Historiadores da Paraíba. O autor faz um esforço de pesquisa, e ainda a gente apela para que ele dê uma contribuição financeira como ajuda para a edição; apelando para amigos darem algum donativo, para podermos executar nosso projeto, que, para este ano, envolve 12 plaquetas, dentro das celebrações dos 500 anos do Brasil. É o resgate da atuação dos nossos primeiros historiadores, já falecidos. Temos contado com a compreensão do editor Pontes da Silva, que tem o Empório dos Livros. Digo da compreensão porque ele só vive aqui, não é só para tomar nosso cafezinho; é para me cobrar.

Imaginem nossas dificuldades para editar a Revista do Instituto. Desde a fundação do Instituto que é um drama. A primeira Revista saiu depois de quatro anos de sua fundação; a Revista nº 4 saiu em 1912 e a 5ª? A 5ª saiu em 1922, dez anos depois, e assim mesmo porque a Paraíba sediou um Congresso Nacional de Geografia.; a 6ª, em 1928. E por aí sai. É preciso muita ginástica. Em atenção à solicitação do companheiro Marcus Odilon, vou diligenciar no sentido de dar uma penada em favor da edição do trabalho da historiadora Natércia Suassuna, que também pertence aos quadros do Instituto de Genealogia e Heráldica.

 

2º participante:

 

João Batista Barbosa:

 

Quero me congratular com o professor Guilherme d’Avila Lins por sua brilhante aula de sapiência que me enriqueceu, apesar dos meus 87 anos; congratulo-me com o Instituto por esta promoção extraordinária, esse prêmio que deu ao povo paraibano, com essa série de palestras aqui proferidas.

Vim aqui também para lembrar um nome que me parece não citado, mas que na minha opinião deu uma grande contribuição à História da Paraíba. Quero me referir ao Dr. José Joffily Bezerra, já falecido.

 

· · ·

 

Não havendo mais inscritos para participar dos debates, lembro aos presentes que a próxima sessão será a de encerramento deste Ciclo, convidando-os para assistirem à palestra do historiador norte-riograndense sobre a PRESENÇA DA PARAÍBA NA CONQUISTA DO RIO GRANDE.

Está encerrada a sessão.

 

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