INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO PARAIBANO/IHGP
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13º Tema

A IGREJA NA PARAÍBA

Expositor: Manuel Batista de Medeiros

Debatedor: Eurivaldo Caldas Tavares

 

A fala do Presidente:

 

Formarei a mesa dos trabalhos convidando o professor Manuel Batista de Medeiros, nosso associado e  expositor de hoje; convido nosso consócio Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares, que será o debatedor; o acadêmico Joacil de Britto Pereira, presidente da Academia Paraibana de Letras.

O tema de hoje é A IGREJA NA PARAÍBA. O Instituto tem a felicidade de possuir no seu quadro duas figuras destacadas, uma que pertence ao clero atuante e outra que pertenceu, mas continua vinculado, que são altamente qualificadas para nos trazer informes sobre a importância da Igreja na Paraíba, o que quer dizer a importância da Igreja na História do Brasil.

Será expositor do tema nosso companheiro Manuel Batista de Medeiros, que é uma pessoa bastante qualificada para este mister.

Nosso expositor é bacharel em muitas coisas. Pertenceu ao Seminário Diocesano da Paraíba, onde foi ordenado padre em 1950; é bacharel em Línguas Latinas, em Ciências Jurídicas e Sociais, em Filosofia; tem mestrado em Educação; foi professor de Latim no Liceu Paraibano e de Literatura Portuguesa na Universidade Federal da Paraíba e é professor de Direito Civil na UNIPÊ; também foi professor de Latim, Português, História Eclesiástica Primitiva, Direito Canônico no Seminário Maior da nossa Arquidiocese; fundador e primeiro reitor da UNIPÊ; foi membro do Conselho Universitário da UFPB; é jornalista, escritor, membro da Academia Paraibana de Letras, da qual foi presidente por dois mandatos; foi diretor do jornal católico A IMPRENSA. Seu currículo é imenso. Diante dessa apresentação, sinto que o plenário está ansioso para ouvi-lo.

Passo a palavra ao professor Manuel Batista de Medeiros.

 

Expositor: Manuel Batista de Medeiros (Sócio do Instituto, ex-presidente da Academia Paraibana de Letras, bacharel em Línguas Latinas e Direito, Mestre em Educação e Filosofia, fundador e professor da UNIPÊ, ex-sacerdote, jornalista).

 

1. Introdução.

 

Inicialmente, agradeço as palavras do nosso Presidente e se eu fosse a metade do que ele disse, eu estaria muito satisfeito.

Antes de fazer a minha falação, gostaria de ler um trecho da bula Sublimes Deus, do Papa Paulo III, endereçada aos índios da América.

Diz o Papa: “Pelas presentes letras decretamos e declaramos, com nossa autoridade apostólica, que os referidos índios e todos os demais povos que daqui por diante venham ao conhecimento dos cristãos, embora se encontrem fora da fé de Cristo, são dotados de liberdade e não devem ser privados dela nem do domínio de suas coisas e ainda mais que podem usar, possuir e gozar livremente esta liberdade e não devem ser reduzidos à escravidão, e que é irrito, nulo e de nenhum valor tudo quando se fizer, em qualquer tempo, de outra forma. Papa Paulo III, Bula Sublimes Deus, 1537”. Bula dirigida aos cristãos das Índias Ocidentais.

Tem aqui, também, uma frase do jesuíta padre Manoel da Nóbrega: “Essa terra é a nossa empresa”.

Louvo a feliz iniciativa da nossa Casa em promover comemorações da passagem da Paraíba nos 500 anos de Brasil, enquanto da parte do Estado e da Prefeitura da capital o que se ouvem são discussões sobre quem realizará o pior reveillon do ano 2000, que muitos confundem com o início do terceiro milênio, nenhum órgão oficial, que eu saiba, se souberem me digam para não fazer acusação indevida, se propôs ainda celebrar o meio milênio da História do Brasil.

Em Portugal já faz dez anos que se estudam os eventos históricos do 500º aniversário do descobrimento, da posse, e eu chamo também da invasão, da terra brasílica, também chamada de Santa Cruz. Comissão para efetuar as comemorações do próximo reveillon, com muita austeridade, já se criou, enquanto que se o Conselho Estadual de Cultura sabe que o Brasil está a poucos meses de fazer seus 500 anos, eu ignoro se ele sabe. Entretanto, esta é magnífica oportunidade, Sr. Presidente, de a pátria, debruçando-se sobre si mesma, fazer oportuna análise sobre o que foi, o que é e sobre o que pretende ser. Este é um precioso momento de reflexão antropológica, histórica, política, cultural e religiosa sobre nossas raízes e o nosso caminhar nestes 500 anos de História do Brasil.

Quando vejo que só esta Casa realiza aquilo que outros deviam cumprir, eu parabenizo nosso Presidente pela iniciativa de realizar essas comemorações. Parabéns, Sr. Presidente. (palmas)

 

2. Análise e não história.

 

No meu discurso de posse na cadeira que aqui tem como patrono um grande historiador eclesiástico da Paraíba e do Rio Grande do Norte, Monsenhor Francisco Severiano, oração que leva o título HISTÓRIA DESNUDA, espécie de ensaio que enfocou a Filosofia da História, levantei ali a tese de que o historiador não pode e não deve reduzir o fenômeno social ou os fatos históricos sobre que trabalha, à sua própria conceituação ideológica, filosófica ou mesmo religiosa. Por outras palavras, quero afirmar claramente que quem tratar de um fato histórico de natureza sociológica católica não deve, necessariamente, ficar coactado ao dogmatismo de sua religião. É o que agora não faço.

Assim, no que diz respeito aos 400 anos de história religiosa da Paraíba, fujo, de caso pensado, ao reducionismo ideológico. Como, de outra parte, evito, neste momento, tentar repetir aqui datas, fatos, nomes, frases de Bispos, de Abades, etc., etc. que outros, com muito mais competência do que eu, já fizeram e podem fazer. Poderia me comparar com Wilson Seixas, com Maximiano Machado, Monsenhor Eurivaldo, com Francisco Lima, com Francisco Severiano e outros, só para citar os mais aproximados de nós? Tudo que vou afirmar sobre a história da eclesiologia católica brasileira deve ser aplicado ao ângulo da História da Igreja na Paraíba. A Paraíba, meus senhores, é um pedaço deste Brasil, sem a qual não se escreve a História do Brasil e nem da política e nem da cultura e nem da arte. Paraíba é Paraíba e é muito mais do que 1930. (palmas)

Entendo ser muito mais lucrativo, desde o ponto de vista científico, que em lugar de meros exercícios repetitivos de datas, nomes e fatos, se tente, aqui, uma livre análise antropológica, por mais singela que seja, do que a Igreja fez desde aquele século que Taine chamou de o maior século da História. Eu pensava até que era o século de Péricles, o século V antes de Cristo, mas Taine acha que o maior século da História foi o 1500.

Creio que a nossa pequena Paraíba é muito rica culturalmente falando e que tal riqueza precisa ser explorada sobre todos os ângulos. Até acho ingenuidade se afirmar que a História da Paraíba se reduz ao evento policialesco de 1930.

 

3. A Igreja e o Padroado Luso-brasileiro.

 

O rei português D. João III escreveu ao Governador Geral do Brasil: a principal causa que me levou a povoar o Brasil foi que a gente do Brasil se convertesse à nossa Santa Fé Católica.

É o rei quem está dizendo, não é o Papa, nem o Bispo de Lisboa.

Na carta de Caminha (essa carta de Caminha é muito curiosa. Aliás, há duas cartas. Uma carta dos médicos, os médicos gostam muito de história e fazem uma referência curiosa dizendo que a ilha do Brasil está lá... como se não houvesse descoberta nenhuma, conforme Marcus Odilon. Vieram tomar posse daquilo que já sabiam que existia. E tanto é verdade que a carta de Caminha diz: “Olhe, el-rei é tão bom que se plantando qualquer coisa dá” (com três dias não dava para saber que plantando dava). Essa carta, que é muito curiosa, merece um estudo nosso. Há duas coisas que quero chamar a atenção sobre a safadezinha do português, porque ele descreve os índios, nus, e tal e tal, mas quando é para descrever as índias ele faz uma descrição que nem a Revista PLAYBOY. Demora e fica explicando. Então a carta oficial ao rei vem com isso. E no final, veja o “arrumadinho” do serviço público, que começa desde aquele tempo, termina: “Vossa Alteza fará mercê se mandar buscar Osório, meu genro, que está na Ilha de S. Tomé”. Desde ali que o serviço público começa a fazer os “arrumadinhos”.

Na carta de Caminha, depois de descrever a primeira missa cantada (e nesta missa não estava só o frei Henrique, havia uns oito padres e frades, inclusive um que ia ser vigário em Calicut e mais uns seis ou oito seculares, padres de São Pedro), depois de descrever a primeira missa cantada sob o pálio da Ordem de Cristo e à sombra da cruz sobre a qual estavam as armas do rei, o escrivão oficial da armada afirma sobre a terra brasileira e seus índios: “contudo o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente.” (Será que salvaram?). Esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.

Estamos vendo que o enfoque da missão era político. Dilatar o império religioso, aumentar a fé salvando as almas. Deus sabe como e quantas almas foram salvas.

Camões, o imortal poeta de OS LUSÍADAS, faz pequena referência ao Brasil lá na frente do cântico X e noutro lugar parece que fala em Terra de Santa Cruz. Veja que importância Portugal deu ao Brasil. Quando Camões escreveu a grande obra o Brasil já estava descoberto e ele não ia cantar a epopéia da América e sim os feitos de Gama, daquele pessoal que foi para a África, dobrou o Cabo, etc. Mas, percebe-se o pouco caso que se dava à descoberta recente.

Mas Camões começa aquelas duas primeiras estrofes, que vou repetir aqui, dizendo que a meta dos feitos portugueses tinha por objetivo dilatar o império. Camões começa imitando Virgílio, com as mesmas palavras.

Ele diz:  As armas e barões (barões é varão) assinalados. Aquilo mesmo que Virgílio já tinha dito, e não sei se imitando também um pouquinho Homero.

Mas, o que interessa aqui é comentar o texto da estrofe:

 

As armas e os barões assinalados

Que da praia ocidental lusitana

Por mares nunca navegados

Passaram ainda além da Probana

E em perigos de guerras esforçados

Mais do que prometia a força humana

Entre gente remota edificaram

Novos reinos que tanto sublimaram

E também as memórias gloriosas

Daqueles reis que foram dilatando

A fé e o império e as terras viciosas

De África e Ásia andaram devastando

E aqueles que por obras valerosas

Se vão da lei da morte se libertando

Cantando espalharei por toda parte

Se tanto me ajudarem engenho e arte.

 

O que chamo a atenção é que o poeta situa a grande empresa como dilatar as fronteiras do império, que era tão grande, e sobretudo as fronteiras da fé. Conclusão: a Fé e o Império andam casados.

Percebe-se dos textos citados que a conquista da terra da gente brasileira obedeceu a um desígnio político da corte lusa, que almejava, ao mesmo tempo, dilatar as fronteiras do grande império sobretudo na África, na Ásia e na Oceania. O Cristianismo era um apoio político para alargar o império. A história registra, mesmo na epopéia da conquista da Paraíba, como a Igreja, através das grandes Ordens Religiosas (os jesuítas, os carmelitas, franciscano e beneditinos), aqui chegara e na primeira hora. Com a catequese do aldeamento ajudou a dilatar o império na Paraíba. Basta lembrar que os primeiros carmelitas e beneditinos que vieram para o Brasil se destinavam à Paraíba. Há mesmo quem afirme que Piragibe salvou a conquista da nossa terra (e a gente sabe que Portugal e Espanha lutaram quase dez anos e não passaram de Goiana, ou quando passavam voltavam correndo) só botaram o pé aqui depois que Piragibe, o guerreiro e o estadista, cujo nome acho que devia ser dado a essa cidade e não outro, Piragibe. Está dito que Piragibe teria sido batizado antes de se apresentar a Olinda; para fazer a intermediação diplomática, já era batizado por um jesuíta. Se é verdade, vale a pena fazer a pesquisa.

É bom, porém, não esquecer que esse interesse da coroa portuguesa em propagar a fé nas plagas brasileiras tinha um suporte logístico no chamado Instituto do Padroado, que certamente foi uma herança maldita que caiu sobre a cátedra de Pedro, que se esquecera da severa advertência de Cristo de que não se deve confundir o Reino de Deus com o Reino de César. Lá no drama da paixão Pedro puxa uma peixeira (no Evangelho fala em espada, mas Pedro era pescador, decerto era uma peixeira) e Cristo pede para Pedro guardá-la, dizendo: “meu Reino não é deste mundo, Pedro”. Sem deixar de dizer que era rei, mas ele confirma que era rei diante de Pilatos. Pilatos fez duas perguntas a Cristo, uma de ordem política e outra de ordem filosófica. – Que é a verdade? Cristo não deu resposta. Mas, quando perguntou: – “Você é rei?” Cristo respondeu: “Sim, só que meu reino não é deste mundo”.

Pois bem, Jesus recomenda a Pedro que não confunda o Reino de Deus com o Reino do Mundo. Com o tempo se conquista o mundo, vem a diáspora, Paulo conquista a Ásia, o mundo grego e lá vai para Roma. Lá vai para Bizâncio. E aí a Igreja se mistura com o poder secular, com o poder temporal. Foi um grande erro, porque a Igreja mundanizou-se, laicizou-se, escravizou-se, paganizou-se. Até pouco tempo a gente via o Papa com três coroas de rei na cabeça, andava em cima de uma sede gestatória, que durou até o Vaticano II.

O reino não é deste mundo, mas se transformou no reino de César.

A igreja católica no Brasil, portanto, na Paraíba, tinha dois governos. Um canônico, com o Papa e os Bispos à frente, e outro imperial, com os reis de Portugal e depois do Brasil, que também era o Grão Mestre da Ordem Militar de Cristo, no seu comando. Quem comandava a Igreja era o rei de Portugal, era o rei do Brasil (Reino Unido) e era o Imperador do Brasil. Isso durou até a República, quando houve a separação da Igreja do Estado. Foi um Deus nos acuda, mas foi um grande benefício para a Igreja, por que ela se sentiu livre. Aí era a Igreja de Cristo.

Essa Ordem Militar de Cristo é um resquício das Ordens da Idade Média, dos Templários e não sei se a Maçonaria não passa por aí. Pelo nome de Grão Mestre é dado ao rei.

Por que essa referência? Por que enquanto rei era Grão Mestre? Porque  enquanto rei Grão Mestre ele era uma espécie de Ministro das Finanças de tudo que se arrecadava em nome da Igreja, com a denominação de dízimo, para a proteção, propagação, defesa das pias obras. Havia esses dois governos, simultâneos. Isso foi bom ou mau?

O Edito de Milão, em 313, dá a vitória da Igreja sobre o paganismo. Constantino se diz o primeiro imperador cristão, mas reza a história paralela que só se batizou velho, porque que o batismo apaga todos os pecados e ele queria pecar a vida toda para se batizar no fim. A mãe era uma santa, Santa Helena, a quem a Igreja deve lhe muito, na Terra Santa.

Então Constantino se fez cristão e permitiu que os cristãos professassem a sua fé. Constantino decreta um Edito, em Milão, dando liberdade aos cristãos.

Para mim o maior benfeitor do cristianismo não foi Constantino, foi Teodósio, o Grande, porque este, além de dar proteção à Igreja, proibiu o paganismo. Um permitiu o cristianismo, o outro proibiu o paganismo.

Constantino tinha tanto poder diante da Igreja é era chamado o 13º apóstolo, chamado também o Bispo de fora, porque havia os Bispos de dentro da Igreja. Mas ele era quem convocava e presidia os Concílios, nomeava os Patriarcas, Bispos, etc.

Mas em que consiste o padroado? Padroado é como se fosse um instituto jurídico das fundações. Eu tenho dinheiro e dou uma importância para que se erija uma capelinha e se nomeie um cura e eu fico mantendo; isso alguém fez. O primeiro colégio jesuíta aqui na Paraíba foi dado por uma família, um casal. Deu o primeiro dinheiro e aí começou a se fazer.

Havia essa maneira de se doar algo para que o benefício fosse criado. Isso em nível de Igreja Universal e de Império. Logo depois o Sacro Império, com Carlos Magno, toma conta da cristandade e o Papa sagra o Imperador e o Imperador renomeia o Papa. Há até um caso curioso numa eleição de Papa. O Imperador mandou os cardeais elegerem o Papa, num convento perto de Roma. Passaram-se três anos sem sair o Papa. O Imperador zangou-se e mandou destelhar o convento. No outro dia saiu o Papa.

O padroado, da palavra latina patronatus, que oficialmente entra em vigor em 1270, consiste na outorga a certas pessoas do direito de apresentar e nomear plebes ou bispos para cargos eclesiásticos, concorrendo materialmente para a manutenção desses benefícios. No início a intenção do padroado era piedosa. Entre os séculos XIV e XV a Igreja concedeu aos reis o direito de exercer o padroado nas terras descobertas e a descobrir. Pelo Papa espanhol Alexandre VI foi dado o tal direito aos reis espanhóis sobre a América. Esses monarcas tinham o poder de proibir a criação de igrejas e conventos. Por isso a gente vê a expulsão de jesuítas. Por que eles faziam isso? Porque eles tinham o poder de fazer. Por que eles prendem os bispos da Paraíba, D. Vital e Macedo Costa? Porque eles tinham poder. O Bispo estava desobedecendo a uma lei civil que existia e à qual ele estava submetido. Dogmaticamente ele estava correto, mas civilmente estava errado.

O padroado foi a grande fonte de malefícios para o Brasil e a Paraíba; embora se tenha estendido do Brasil Colonial ao Brasil Império, desapareceu com a República através do decreto de 7 de janeiro de 1890. Cabia aos reis do Brasil conservar e propagar a fé. O padroado tinha sido conferido ao Imperador do Brasil em 27 pela Bula Preclara Portugalia, que concedeu este título ao chefe do governo imperial.

Graves problemas surgiram entre a Igreja e o Império, sendo os mais sérios aqueles citados na Regência de Feijó, que queria criar uma Igreja Nacional e sobretudo na chamada Questão Religiosa, depois da qual desapareceu o trono e sobrou o altar.

Diante desses fatos que permeiam a catequese dos índios e nada se fez pelos escravos (é curioso como os jesuítas brigaram e fizeram muito bem pelos índios, mas não se vê nada feito com respeito aos negros, os escravos). A catequese dos índios foi feita. Não sabemos o que teria sido do Brasil sem as Ordens Religiosas dos jesuítas. Capistrano disse que não se pode escrever a História do Brasil sem se escrever a História dos Jesuítas. Não só os jesuítas. Porque tivemos cinco grandes conventos e até geograficamente a gente vê. É curioso como uma cidade tão pequena, a cidade tinha 10 mil almas, com cinco conventos. Todos localizados um perto do outro.

Vocês já foram à igreja da Nossa Senhora da Guia, depois da recuperação? Vale a pena como passeio e visita cultural. É admirável como dentro daquela mata, onde só havia maloca de índio, aldeamento, os carmelitas criaram uma obra de arte como aquela.

Aí a gente pergunta: sem as Ordens Religiosas na Paraíba teríamos o acervo cultural que temos? Sem a assistência médica das Santas Casas, o que teria sido das populações? Era o rei? O rei nada fez. A educação, quem fez foram os jesuítas nos colégios.

Nós podemos criticar a metodologia da catequese aqui na Paraíba, e no Brasil, porque havia culturas que deviam ser respeitadas. Mas o aculturamento que se fez para se cristianizar estas massas, por todas as nossas nobres Ordens Religiosas, a meu ver, deformaram muita coisa. Essa cristianização tinha que respeitar as características da cultura. Sei que melhor fazer isso do que não ter feito nada.

Na Paraíba há uma coisa curiosa. Dois chefes de poderes desmancharam igrejas para fazerem palácios. D. Adauto e outro, em 30. Quando entrei no Seminário para estudar, vi uma escadaria que subia do claustro para o primeiro andar feita com taboas do forro da igreja. Quanto se perdeu? Não foi só uma igreja ou duas. E as outras estão caindo aí sem nenhuma proteção. Houve quem construísse de uma maneira que a gente lamenta, mas se fez alguma coisa.

Quero concluir fazendo algumas indagações, cuja resposta deixo a critério de cada um.

A verdadeira semente do Reino de Deus foi plantada no Reino de Portugal, ou o Evangelho serviu mais à corte do que à conquista das almas?

Os frades trabalhavam pela conquista das almas, estavam a serviço da autêntica cristandade, ou porque eles eram remunerados pelo dízimo do padroado?

A cultura dos índios e dos negros foi preservada pelo projeto da pedagogia da conquista?

Sem a presença da Igreja, o Reino de Portugal e depois o Império do Brasil teriam cuidado da educação, da saúde e da organização social dos índios, dos escravos e dos proletários dos campos e das cidades?

Quem saiu ganhando nas lutas da conquista do interior paraibano, quando as fazendas eram fundadas com frades? Quem saiu ganhando nessas lutas, a Igreja ou o Reino?

Quem teve razão na questão religiosa? O Bispo paraibano ou o Império? (o Império era o padroado).

Qual o lado positivo do Quebra-Quilos? Foi uma revolução política ou religiosa?

Como se comportou a Igreja na Inquisição da Paraíba?

Por que a Igreja não cuidou dos negros como cuidou dos índios, e hoje cuida dos sem terra?

Para a cultura e as artes da Paraíba teria sido melhor a ausência da Igreja?

A respeito conheço a opinião de Roger Bastide: O mais puro barroco do Brasil se chama a Igreja de S. Francisco.

Quem saiu ganhando na República com a separação da Igreja do poder civil?

Qual a contribuição da Igreja na formação dos homens de Estado da Paraíba?

Quantas personalidades passaram por uma formação religiosa específica? Governadores, presidentes, senadores, reitores, etc.

O que seria melhor? Haver padroado, ou não ter havido padroado?

Quem ajudou mais a Paraíba? Foi o índio catequizado nos aldeamentos ou os negros, que segundo um Bispo, deviam ser sempre escravos dos brancos?

O que se deveu aos jesuítas e ao Marquês de Pombal na formação do homo paraibenses? Deve-se alguma coisa ao Marquês de Pombal ou se deve às Ordens Religiosas?

A igreja católica do século XX tem um saldo positivo ou negativo em favor do povo de Deus?

É só.

 

· · ·

 

A fala do Presidente:

 

Como prevíamos, a exposição do professor Manuel Batista de Medeiros trouxe-nos muita luz sobre a participação da Igreja na Paraíba, e não só na Paraíba e no Brasil, mas, também, deu-nos uma visão da ação da Igreja no mundo, com o que nos facilitou entendê-la na sua atuação nestas plagas.

O expositor criou as condições para podermos conhecer a Igreja,  para entender a Igreja na sua atuação secular.

Ficamos esclarecidos sobre o papel do padroado, um instituto que se, por um lado, permitiu a expansão da Igreja, por outro trouxe alguns malefícios para sua própria organização, conforme confessa o expositor.

A importância da catequese dos nossos tabajara e potiguara foi ressaltada nos seus limites. A exposição do professor Manuel Batista de Medeiros teve, além das novidades que trouxe a público, a análise crítica isenta sobre a Igreja, mostrando aspectos de sua evolução até os nossos dias.

Agora, vamos ter uma noção da parte propriamente ligada à Paraíba, através da palavra do nosso consócio Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares.

Monsenhor Eurivaldo, na minha classificação particular, faz parte da velha guarda da Igreja. São 50 anos de sacerdócio, passando por várias paróquias do interior do Estado e terminando na Igreja da Misericórdia, donde se afastou, mas continua firme em uma capela que a Arquidiocese autorizou funcionar em sua própria residência, onde diariamente celebra a Santa Missa.

Na sua atividade religiosa foi capelão de várias instituições tais como o Colégio Diocesano Pio XI, de Campina Grande;  Hospital Regional de Sapé;  Hospital Napoleão Laureano;  Penitenciária Modelo;  Externato Santa Dorotéia. Foi também capelão interino do I Grupamento de Engenharia e Construção e da Polícia Militar da Paraíba, por onde se reformou como Major-Capelão.

Monsenhor Eurivaldo exerceu o magistério nas nossas universidades e em vários colégios. Pertence à Academia Paraibana de Letras e no Instituto ocupa a cadeira nº 26, cujo patrono é Diógenes Caldas.

Publicou várias obras de valor histórico sobre a Igreja e perfis biográficos sobre as figuras mais importantes da nossa Igreja, tais como D. Moisés Coelho, João de Deus, Monsenhor Tibúrcio, Monsenhor Anísio, Mathias Freire e outros, razão por que o convidamos para participar deste Ciclo de Debates.

Assim, é com satisfação que passo a palavra ao Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares.

 

· · ·

 

Debatedor: Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares (Sócio do Instituto e da Academia Paraibana de Letras, major-capelão reformado da Polícia Militar, ex-professor da UFPB)

 

O Dr. Manuel Batista de Medeiros, expositor do tema, já deu a lição verdadeira abordando o assunto que está sendo hoje estudado neste Ciclo de Debates dedicado aos 500 anos do Brasil. Ele próprio disse que ia seguir uma linha diferente da que comumente fazem os historiadores, que enfadonhamente citam datas, lugares e fazem muitos detalhes e deixam a seqüência de acontecimentos sem o estudo crítico, tal como ele fez. O professor Batista demonstrou que não é apenas um historiador no sentido de colecionar datas históricas, mas é um homem que interpreta não só a História da Igreja, a História do Brasil, mas a história mundial.

Fiz um trabalho pequeno, com certo esforço, porque os companheiros sabem que minha saúde, de algum tempo para cá, me tem dificultado escrever e pesquisar. Isto é um pretexto para pedir perdão pelo modesto trabalho, que não está à altura da aula de sapiência do professor Batista.

O que nós temos de bom aqui é o nosso Presidente, com a sua verve sempre atual e que, de vez em quando faz a gente desopilar, quando a sessão está cansativa e ele diz uma das boas e a turma acorda. Então, Presidente, quando notar que o trabalho estiver muito pesadão solte uma das suas para ver se o plenário agüenta.

Lerei para os senhores o trabalho que preparei para este ciclo, dando início à minha participação.

Em pronunciamento, há algum tempo, da tribuna desta Casa, tivemos oportunidade de, referindo-nos ao nosso Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, assim nos expressar: “Fiel a si próprio como intérprete do existir e do viver da terra e do povo tabajarinos, tornou-se, na verdade, o relicário vivo de suas mais puras e genuínas tradições. No cumprimento de tão nobres e elevadas tarefas, remove a poeira dos arquivos, confere datas, revive acontecimentos e neles situa, depois de pacientes e criteriosas pesquisas, a vida e os feitos de quantos, filhos, ou não da Paraíba estejam de uma forma, ou de outra, a ela ligados, para apontar seus nomes à veneração e  ao reconhecimento da posteridade”. 

Nosso sodalício, justificadamente chamado “Casa da Memória da Paraíba”, cada vez mais se desdobra em variadas atividades culturais. Não se restringe, apenas às regulamentares sessões ordinárias de cada mês, mas se expande em múltiplas realizações, divulgadas através nossos “Boletins Informativos”, ou nos Relatórios da Presidência.

Não resta tempo para se deterem passivos nossos associados, ou estudiosos aficionados de temas específicos, convidados que são para reuniões extraordinárias, ou assembléias gerais, bastante concorridas e aplaudidas. Confirmação do que afirmamos, é, por exemplo, este movimentado Ciclo de Estudos, cujo programa abrange 18 sessões de debates e que se estende de 15 de setembro a 12 de novembro do corrente ano, e que gira em torno da temática geral – A PARAÍBA NOS 500 ANOS DE BRASIL.

 

I – A IGREJA NA PARAÍBA

 

Este é o tema que tão brilhantemente expôs nosso eminente consócio professor Dr. Manuel Batista de Medeiros, cabendo-me adicionar algumas modestas achegas, como tarefa que devo irrecusavelmente cumprir.

Em carta aos seus diocesanos, escrita da Fortaleza de São João, onde se encontrava preso, nosso conterrâneo D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, que se tornou conhecido por sua participação na célebre “Questão Religiosa”, destemidamente comentou: “A igreja nasceu, cresceu e vigorou no seio das perseguições, e, por isso, nada há de recear. Mas o Estado?”

O futuro, dizemos nós, respondeu com profundas transformações operadas com a abolição da escravatura, o progresso dos ideais republicanos, os quais mais se intensificaram depois da guerra do Paraguai (1870), até a Proclamação do Marechal Deodoro, a 15 de novembro de 1889.

A primeira Constituição Republicana preconizava completa separação entre a Igreja e o Estado por estar impregnada dos princípios positivistas e contistas; a República impõe a liberdade dos cultos, a secularização dos cemitérios, a laicização do ensino, o casamento civil, negação dos direitos políticos aos religiosos, a confirmação da Lei Pombalina que expulsava os Jesuítas, a vedação de novas ordens Religiosas e seus conventos. Dessa forma, a República nascente não era menos hostil à Igreja, que o Império.

A reação, porém de nosso Episcopado, através da Célebre Pastoral Coletiva (1890) soou como solene protesto contra o governo, e sobre as condições de tratamento. Daí, como conseqüência melhorou a liberdade religiosa, foi abolida a Lei Pombalina, sentindo-se o revigoramento da vida cristã em todo o País.

Digno de nota foi a nova política de reconciliação diplomática adotada pela Internunciatura Apostólica inspirada pelo Papa Leão XIII, o qual decidiu reestruturar a Hierarquia Católica em nosso País. Assim sendo, o Brasil foi dividido em duas Províncias Eclesiásticas, a da Bahia e a do Rio de Janeiro, de tal sorte que o território que antes abrangia 12 Bispados, ficou com 16, sendo que cada Província constaria de uma sede Metropolitana e sete Bispados sufragâneos. Dentro desse quadro, chegou a vez da Paraíba que ficou incluída na Província Setentrional, juntamente com o Amazonas, enquanto que Vitória e Cuiabá, na Província Meridional.

 

II – PARAÍBA – PRELAZIA E DIOCESE

 

ITINERÁRIO DA PARAÍBA CATÓLICA, estudo por nós publicado, quando da ocorrência do IV Centenário da Fundação de nosso Estado (1985), registra que o crescimento da Religião na Paraíba, valeu-lhe, de preferência a Pernambuco ser escolhida sede de uma Prelazia, criada em 1614. Tal Prelazia, sediada, como foi dito, na Paraíba abrangia, além de seu próprio território, os das Capitanias de Pernambuco, Itamaracá e Rio Grande do Norte. Seu primeiro Prelado, nomeado por alvará régio foi o Padre Antônio Teixeira Cabral, cuja atuação foi considerada regular, pois, apesar das grandes distâncias para percorrer toda a extensão da Prelazia, criou o prelado diversos Curatos e Paróquias, aumentou o número de padres, alguns vindos de Portugal e outros, ordenados pelo Bispo da Bahia. O campo era fértil, o que propiciou ao Papa a criação da Diocese de Olinda, em Pernambuco, abrangendo por terra e mar o Rio São Francisco aonde se limitava com a da Bahia, as Capitanias da Paraíba e Rio Grande do Norte, até o Ceará, inclusive.

Como viram, a Prelazia não era uma Diocese. O Prelado era um quase Bispo, apenas não era sagrado Bispo, mas tinha poderes quase iguais aos Bispos.

Finalmente, a Bula Ad universos orbis Eclesias, de 27 de abril de 1892, de Leão XIII diz textualmente: “Para formar a outra Diocese da Paraíba separamos igualmente para sempre e lhe designamos o território do mesmo nome e do Estado do Rio Grande do Norte, que constituem presentemente parte da Diocese de Pernambuco: na cidade da Paraíba fundamos a sede da Igreja chamada da Santíssima Virgem das Neves a Catedral do Bispado e elevamos por isso dita Igreja à dignidade de Catedral.

Desta Diocese da Paraíba os limites orientais e setentrionais serão fixados pelo Oceano Atlântico até a barra do Rio Mossoró. Para o Ocidente os limites serão a cadeia dos Montes Apodi e Pageú, dos quais será separado da Diocese de Fortaleza. Para o Sul, finalmente, a Diocese de Olinda pela cadeia “Imburanas” à foz do Rio Goiana serão os seus confins...

Dado em Roma, junto a São Pedro, no ano de 1892, da Encarnação do Senhor, a 27 de abril, décimo quinto do nosso Pontificado.

 

III – O PRIMEIRO PASTOR – VIDA E MORTE

 

Criada que fora a Diocese, os paraibanos esperavam ansiosos seu 1º Pastor. A escolha recaiu na pessoa do Revmo. Monsenhor Dr. José Basílio Pereira, virtuoso sacerdote do clero baiano, o qual, por motivo de saúde, renunciou o honroso encargo. Em vista disso, o Santo Padre Leão XIII elegeu o não menos idôneo Cônego Adauto Aurélio de Miranda Henriques, Cônego da sede de Olinda e professor catedrático do Seminário Diocesano local. Seu biógrafo, o ilustrado historiador conterrâneo, Cônego Francisco Lima registra: o Bispo eleito era natural de Areia. Sentindo-se chamado ao Sacerdócio e ajudado financeiramente por pessoas amigas e de posses, viajou a Europa, onde cursou em Paris, o Seminário São Sulpício, o Colégio Pio Americano e a Universidade Gregoriana em Roma, onde se ordenou Padre aos 18 de setembro de 1870 e onde também foi sagrado Bispo, em 7 de janeiro de 1894 pela imposição das mãos do Eminentíssimo Sr. Cardeal Lúcio Maria Parochi.

A carta saudando seus Diocesanos é da mesma data, constituindo o primeiro elo de uma cadeia de 41 escritos pastorais que somente terminaria no último, aos 6 de fevereiro de 1914; o Papa Pio X pela Bula “Magis Catholicae Religionis”, ao tempo em que criou a Diocese de Cajazeiras, elevou a Paraíba à condição de Província Eclesiástica, elevou igualmente D. Adauto a seu 1º Arcebispo Metropolitano. Em 29 de junho de 1932 o Papa Pio XI concedeu-lhe como Arcebispo Coadjutor, com direito à sucessão, D. Moisés Coelho, até então Bispo de Cajazeiras. Alquebrado pelo peso da idade, D. Adauto não renunciou e permaneceu no Governo Diocesano até a hora de Deus. Contava já então quase 80 anos de idade; 55 de Sacerdote; 41 de Bispo; e 21 de Arcebispo.

Acometido de infecção pulmonar, recolheu-se ao leito nos últimos instantes cercado por D. Moisés e diversos Padres que foram sempre seu amparo e sua coroa de glória. Tendo recebido os sacramento das mãos do seu sucessor e discípulo, D. Adauto entregou sua bela alma a Deus, ao meio dia da Festa de Nossa Senhora de Assunção, aos 15 de agosto de 1935. Os presentes repetiam em coro o versículo do hino sacro que constituía a legenda de seu brasão episcopal Iter para tutum – prepara caminho seguro.

Este lema de D. Adauto ainda hoje está inscrito no Palácio do Carmo e no prédio onde até pouco funcionou A IMPRENSA. Iter para tutum – prepara caminho seguro.

As pessoas que não tinham muitas letras e não conheciam o Latim, sobretudo os pobres e ignorantes, a quem D. Adauto dava muita atenção e acolhida em sua casa, viam inscrito na fachada do palácio Iter para tutum e liam Iter para tutúm, e traduziam “entrada para todos”. Aí todo mundo entrava no Palácio. D. Adauto não tinha porteiro, não tinha segurança, não tinha nada, nem tinha campainha para chamar. A porta aberta, eles encontravam D. Adauto sentado numa rede e ao lado uma sacola cheia de medalhinhas de santos e um depósito com diversas moedas. Aí chegavam os visitantes para tomar a bênção: “a bênção, seu bispo”. Ele já meio surdo, perguntava o que queria. – A bênção, seu bispo. – Ah! Está abençoado. Dava uma medalhinha e uma moeda. Era a vida dele, nos últimos dias em que o conheci. Entrei no Seminário em 1933 e ele morreu em 1935, foram apenas dois anos de convivência com D. Adauto. Mesmo naquele estado, ele estava presente em todas as solenidades e presidiu a Semana Santa, até o último ano em que morreu. Apenas se cansava muito e quando a Mitra estava incomodando sua cabeça ele chamava Monsenhor José Tibúrcio, que era nosso Reitor e cerimoniário, e dizia: “tira isso da minha cabeça que não agüento mais. Está muito pesado”. Fiz esse parêntese para abrandar a leitura do texto.

Continuemos. Velado na Igreja do Carmo, o esquife foi conduzido em procissão por avultado número de fiéis que assistiram consternados o sepultamento de seu Pai Espiritual, aos pés da Santíssima Virgem das Neves.

O primeiro local onde D. Adauto foi sepultado foi exatamente aos pés do altar de Nossa Senhora, lá abriram a sepultura para ele. Eu me recordo de um incidente que ia tendo certa gravidade se não fosse a presteza de quem o acudiu na hora. O interventor da Paraíba que está presente estava bem próximo ao local do enterro, distraidamente, ia caindo na sepultura aberta para o Bispo e foi agarrado a tempo de evitar o acidente. Posteriormente, tiraram, inexplicavelmente, o corpo de D. Adauto. Sou de opinião que não deviam ter tirado. Lá estava D. Adauto enterrado sob uma lápide de mármore com os dísticos em Latim: “Aqui repousa aos pés da Virgem das Neves D. Adauto Aurélio de Miranda Henriques, 1º Bispo e Arcebispo 1º da Arquidiocese da Paraíba”. São lembranças que guardo, porque fui testemunha ocular.

Discorrer sobre D. Adauto, 1º Bispo e 1º Arcebispo da Paraíba e o que representa sua obra evangelizadora que vai de 4 de março de 1894 a 15 de agosto de 1935 é tarefa que abrange quase metade de um século, que encerra a história de nossa centenária Igreja Diocesana. Amante das letras e das ciências, nosso Bispo além de abrir colégios na Capital e no interior, da Paraíba e do Rio Grande do Norte para a educação da mocidade, estabeleceu um Instituto Superior para a formação do Clero, com sede na Cidade Episcopal.

Concedeu-lhe o Senhor que ele próprio viesse a colher através dos anos, os sazonados frutos do zelo apostólico de mais de duas centenas de Padres e de meia dúzia de Bispos que ele ordenara, espalhados pela Paraíba, Rio Grande do Norte e o Brasil afora. Tudo a atestar e justificar os títulos de glória do nosso Seminário Arquidiocesano, genuína Escola do Saber e da Virtude. Não é de omitir-se, seu cuidado pela criação e funcionamento do Jornal Católico que, por anos, circulou – A IMPRENSA.

 

IV – D. MOISÉS COELHO – COADJUTOR E 2º ARCEBISPO

 

D. Moisés Coelho, Padre ordenado por D. Adauto, que o fez Cônego do Cabido e Diretor Espiritual do Seminário, apontado por ele para o Episcopado, como 1º Bispo de Cajazeiras em 16 de novembro de 1914, foi o mesmo virtuoso Prelado indicado ao Papa, para tornar-se seu Coadjutor com direito à sucessão, empossado em 29 de junho de 1932.

Segundo afirma o Cônego Francisco Lima em sua obra SUBSÍDIOS BIOGRÁFICOS (Vol. III): “Era de mister um Coadjutor que aliasse ao espírito de fé, o zelo da caridade, isto muito acima das raias comuns. Exigia-se do Coadjutor que conhecesse o terreno, praticamente, que estivesse familiarizado com todos os seus elementos positivos e negativos, que houvesse testemunhado as lutas, as reações, as iniciativas, os empreendimentos que ponteavam a história daquela conquista. Eis a gênese da escolha de D. Moisés Sizenando Coelho, para Arcebispo Coadjutor de D. Adauto, para 2º Arcebispo da Paraíba”.

D. Moisés percorreu toda a Arquidiocese em visitas pastorais. Dedicou-se à pregação de Retiros Espirituais, palestras e conferências, Páscoas coletivas e administração do Sacramento do Crisma. Esteve presente ao Congresso Eucarístico, em Salvador, na Bahia, em 1933, como ao Congresso Eucarístico Internacional, realizado em Buenos Aires em 1934. Dominus illuminatio mea era o dístico de seu lema episcopal – O Senhor é a minha luz. Guiado por essa luz divina, D. Moisés continuou o longo e fecundo apostolado de seu antecessor. Durante seu período como metropolita, foram criadas mais duas Dioceses na área: Caicó/Rio Grande do Norte, em 1939 e Campina Grande (em nosso Estado), em 1949 e a elevação de Natal à dignidade de Arcebispado (1952).

Sua visão do futuro e sua preocupação por novos padres levaram-no a instalar pessoalmente em todas as Paróquias da Arquidiocese a Obra das Vocações Sacerdotais. Mesmo apegado pessoalmente às velhas paredes do Seminário de São Francisco, em que se formara e em que exercera por tempos sua função de orientador de consciência dos futuros padres, não hesitou em empenhar-se pela edificação de novas e modernas instalações do Seminário no Bairro do Miramar, e que se tornara sublime aspiração de seu futuro Bispo Auxiliar, D. Manoel Pereira da Costa.

Um sonho que D. Moisés sempre acalentou, prova dos cuidados paternais que  votava por seus auxiliares, foi edificar para os padres idosos e os que na capital não possuíam casa própria, ou mesmo local digno onde se hospedassem, quando tivessem de vir a negócios à cidade, foi organizar a Casa do Padre, à imagem de uma Casa Grande que abrigasse a família sacerdotal. Foi de veras comovedor, até às lágrimas, o momento em que o pastor solícito, velho e alquebrado, em uma cadeira de rodas, ser conduzido para benzer, pessoalmente, sua última realização. Era o legado que deixava em testamento e que teve a ventura de ver funcionando, antes de morrer. Pena, muita pena mesmo, que, pouco tempo depois de seu desaparecimento, desaparecesse, por igual, sua obra, alienando-se o prédio, a que foi dada outra destinação. Seu interesse pela defesa da fé e a difusão da boa imprensa levou-o a promover intensa campanha por um melhor reaparelhamento do nosso diário católico A IMPRENSA, que D. Adauto criara. Círculos Operários multiplicavam-se na capital, bem como receberam novos incentivos as Congregações Marianas e Cruzadas Eucarísticas Infantis.  Organizou a Ação Católica Oficial com a instalação de sua Junta Arquidiocesana. Já antes, em 1936, promoveu, na impossibilidade de um Congresso Nacional, uma Semana Eucarística, na capital, com excelentes frutos de fé e devoção dos fiéis. Para sua administração, além da dedicação de seu Clero, especialmente o Paroquial, contou D. Moisés com a lealdade e eficiente ajuda de seus vigários gerais, Mons. Odilon Coutinho e D. Manoel Pereira, que também foi Bispo Auxiliar.

D. Moisés Sizenando Coelho nasceu em Cajazeiras, a 8 de abril de 1877. Ordenou-se a 1º de novembro de 1901. Serviu no Rio Grande do Norte, em Natal, como Capelão das Irmãs Dorotéias, Vice-Diretor do Colégio Santo Antônio, Coadjutor da Matriz, ao lado do vigário Pe. João Maria Cavalcanti de Albuquerque, o qual morreu em odor de santidade e cuja memória ainda permanecerá na consciência do povo cristão natalense. Na Capital paraibana, foi Diretor Espiritual do Seminário, Cônego do Cabido, Vice-Diretor Diocesano do Apostolado da Oração, Diretor da Liga Eucarística Sacerdotal e Redator do jornal A IMPRENSA. Em 16 de novembro de 1911 foi eleito pelo Papa Bento XV 1º Bispo de Cajazeiras. Em 22 de fevereiro de 1932, tomando posse no dia 29 de junho do mesmo ano, foi nomeado Arcebispo Coadjutor, com direito à sucessão. A 15 de agosto de 1935, com a morte de D. Adauto tornou-se o 2º Arcebispo Metropolitano da Paraíba. A 18 de abril de 1969 expirou placidamente ao Senhor, contando 82 anos de idade; 58, de Padre; 44, de Bispo; 27 de Arcebispo Coadjutor e 24 de Metropolita.

 

V – 3º ARCEBISPO METROPOLITANO – BREVE PASTOREIO – RENÚNCIA

 

O sucessor de D. Moisés, como 3º Arcebispo Metropolitano da Paraíba foi D. Mário de Miranda Vilas-Boas. Nasceu a 4 de agosto de 1903, na cidade do Rio Grande, Estado do Rio Grande do Sul. Fez seus primeiros estudos em São Cristóvão, antiga capital de Sergipe. Sentindo-se chamado à vida sacerdotal, matriculou-se no Seminário da mesma cidade. Concluídos os estudos eclesiásticos foi ordenado Padre, a 5 de dezembro de 1925 pelo Bispo D. José Thomaz Gomes da Silva. Foi Cônego do Cabido, Secretário do Bispado e ainda agraciado com a dignidade pontifícia de Monsenhor. Exerceu o magistério no Colégio Estadual e no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, sendo também sócio fundador da Academia Sergipana de Letras.

Escolhido para o Episcopado, foi sagrado Bispo de Garanhuns em Pernambuco aos 30 de outubro de 1938. Seu lema episcopal foi Sentir cum EcclesiaSentir com a Igreja, enquanto, sua 1ª Carta Pastoral saudando os diocesanos foi considerada documento básico para o movimento litúrgico e o apostolado leigo no Brasil. Dotado de voz atraente a serviço de um verbo inflamado, D. Mário empolgou nos Congressos Eucarísticos Nacionais do Recife, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e na Consagração do Brasil à Nossa Senhora e em outras ocasiões religiosas e civis de relevante importância, merecendo ser incluído entre os maiores oradores sacros de nossa Pátria. A 5 de janeiro de 1945 foi elevado a Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará, quando desenvolveu fecundo apostolado que o projetou mais no cenário brasileiro.

Imortalizou-se, no entanto, na realização do VI Congresso Eucarístico Nacional, no ano de 1953, na capital paraense. Após 12 anos de intenso trabalho apostólico no Norte do Brasil, começou a sentir abalo em sua saúde, motivado provavelmente pelos rigores do clima abrasador da região. Foi então transferido para a Bahia como Arcebispo Coadjutor do Eminentíssimo Sr. Cardeal de Salvador e Primaz do Brasil, com direito à sucessão, em maio de 1957.

Demorou-se por pouco tempo na Bahia, sendo, a pedido, transferido para a Arquidiocese da Paraíba, empossando-se a 27 de setembro de 1959. Persistindo os males que lhe afetavam a saúde, não lhe foi possível exercer os planos e metas que traçou. D. Mário passou por profundo golpe, que foi o passamento de sua venerada e, para ele, idolatrada genitora, D. Ritinha. Abatido e triste, encaminhou à Santa Sé novo pedido de renúncia, que foi aceito em 18 de maio de 1965. Retirou-se, então, de volta a Aracaju, onde foi residir em casa, que lhe foi generosamente ofertada por um grupo de fiéis amigos e admiradores. Lá, veio a falecer a 23 de fevereiro de 1968, aos 65 anos de idade, 43 de Padre, 30 de Bispo e 23 de Arcebispo.

 

VI – 4º ARCEBISPO – D. JOSÉ MARIA PIRES

 

Após a renúncia de D. Mário, do Governo Arquidiocesano da Paraíba, em 18 de maio de 1965, seguiu-se longa vacância, em que o mesmo Governo foi exercido pelo Vigário Capitular eleito, Mons. Pedro Anísio Bezerra Dantas.

Nomeado pelo Papa Paulo VI, no dia 2 de dezembro de 1965 tomou posse em 27 de março de 1966, o 4º Arcebispo Metropolitano, D. José Maria Pires, nascido em Córregos, Minas Gerais, aos 15 de março de 1919. Estudou no Seminário de Diamantina, onde se ordenou Padre em 20 de dezembro de 1941. Exerceu o magistério como Diretor do Colégio em Governador Valadares. Foi Pároco em Açucena e Curvelo. Escolhido para o Episcopado, em 22 de setembro de 1957, tornou-se Bispo de Araçuaí, escolhendo o lema Scientiam SalutisCiência da Salvação. Ali permaneceu durante oito anos, até a sua elevação ao Arcebispado da Paraíba.

Sua caminhada em nosso meio se notabilizou pela ação pastoral que, como Padre Conciliar que foi, do Concílio Ecumênico Vaticano II, fez-se responsável pelas profundas modificações que a Igreja tem sofrido em sua atuação no mundo contemporâneo, em nível de documentos de ordem doutrinária, ou de atitudes práticas no âmbito pastoral. Foram 30 anos de convivência em que o Arcebispo D. José deu testemunho de vida, com a força irresistível de franqueza e coragem de lutar. Pela justiça, pela posse da terra, pela não violência, pela paz social. Foi um trabalho insano, liderando movimentos que visavam conduzir nossa Igreja do remanso das elites para a conturbada periferia dos pobres e excluídos, ou como ele próprio dissera e escrevera: “Do centro para a margem”.

Estimulou, através de Assembléias diocesanas, encontros, visitas pastorais e intereclesiais, as Comunidades Eclesiais de Base, campanhas de fraternidade, comissão pastoral da terra, pastorais especializadas: do negro, do índio, e do movimento de promoção da mulher e da proteção ao menor abandonado. Criou o Centro Cultural São Francisco, incluindo o Museu Sacro, o Arquivo Eclesiástico, reabriu o Seminário Arquidiocesano. Instalou, em terreno doado pelas Religiosas de Santa Catarina a nova Casa dos Padres,  com ajuda vinda do exterior, e celebrou o Centenário da Diocese – 1984-1994, com dístico: “Cem anos de coragem e fé”.

Em 1975, teve seu Bispo Auxiliar, na pessoa do Sr. D. Marcelo Pinto Carvalheira, o qual, mais tarde, tornou-se o 1º Bispo de Guarabira, cidade paraibana que se tornando Diocese, ficou fazendo parte da Província Eclesiástica da Paraíba. Cumprindo disposições emanadas da Santa Sé Apostólica, por motivo de haver atingido a idade de 75 anos, apresentou ao Santo Padre, o Papa, o seu pedido de renúncia do ônus episcopal, que aceito, em 29 de novembro de 1995, tornou-o Arcebispo emérito da Paraíba e Administrador Apostólico Arquidiocesano até a posse de seu substituto.

 

VII – 5º ARCEBISPO – D. MARCELO PINTO CARVALHEIRA

 

Nasceu em Recife a 1º de maio de 1928. Cursou o Seminário de Olinda, onde concluiu o 1º e 2º graus. Filosofia e Teologia cursou na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Ordenou-se Sacerdote na Cidade Eterna, aos 28 de fevereiro de 1953. De volta a capital pernambucana, foi Professor de Teologia no Seminário de Olinda e mais tarde, Diretor Espiritual do Seminário Arquidiocesano do Recife, na Várzea e ainda Reitor do Seminário Regional do Nordeste, Olinda e Camaragibe. Ainda como Padre, foi Vigário Episcopal para o setor de leigos. Já no ano de 1975 foi eleito Bispo, sendo sagrado em João Pessoa, aos 27 de  fevereiro, como Auxiliar do Sr. Arcebispo da Paraíba.

Em 1981 foi transferido para a recém-criada Diocese de Guarabira, como Bispo Diocesano, atuando sempre dentro do seu lema escolhido Evangelizare – Evangelizar, tornou-se verdadeiro missionário, difundindo o Evangelho entre todas as camadas da sociedade, de modo mais intenso entre os humildes e os sem vez e sem voz. Durante o período, teve sempre marcante atuação na C. N. B. B. – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, participando pelo Episcopado Brasileiro no Sínodo Universal dos Leigos, em Roma, e na Conferência Geral do Episcopado Latino-americano.

A 29 de novembro de 1995 foi elevado a Arcebispo, tornando-se o 5º Arcebispo Metropolitano da Paraíba. Sua posse canônica foi efetuada no dia 14 de janeiro de 1996.

O novo pastor tem procurado dar execução ao Projeto de Evangelização da Igreja no Brasil, em preparação ao grande Jubileu do Ano 2000, rumo ao 3º Milênio, proposta pela Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros, dentro das reais circunstâncias do nosso meio. Assim, levando em conta o constante crescimento populacional das regiões suburbanas da sede episcopal, criou e instalou mais sete Paróquias: No Jardim Planalto, a da Virgem dos Pobres; no Jardim 13 de Maio, a de Nossa Senhora Aparecida; no Brisamar, a de São Pedro e São Paulo; na Penha, a de Nossa Senhora de Guadalupe; no Bessa, a da Virgem  do Auxílio dos Cristãos; no Conjunto Castelo Branco, a de São Rafael; no Rangel, a de São Francisco das Chagas. No interior, foi ainda criada na cidade de Itapororoca a Paróquia de São João Batista.

Além disso, na Capital, a antiga igreja do secular Mosteiro de São Bento foi reaberta ao culto público, depois de restaurada, o mesmo acontecendo com o Convento e a Igreja da Guia, na praia de Lucena. Na praça São Francisco, no centro da cidade, foi instalado o Convento para as Irmãs do Carmelo, Nossa Senhora Mãe de Deus. A Arquidiocese, com ajuda financeira do Movimento Internacional “Adveniat”, adquiriu uma casa, bem próxima à Igreja Catedral, para servir como Residência Episcopal. É de referir-se aqui, o empenho pessoal do Sr. Arcebispo D. Marcelo, junto à Congregação Romana do Culto Divino no Vaticano, e até junto ao próprio Papa no sentido de que fosse benignamente aceita sua súplica de elevar nossa Catedral à dignidade de Basílica Menor,  o que, felizmente se tornou realidade com a assinatura pelo Papa João Paulo II, do Breve Pontifício, datado de 5 de novembro de 1997. Igualmente não é de ocultar-se que essa honrosa conquista dos católicos paraibanos, principalmente se deve ao nosso Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, que, por ocasião das comemorações do IV Centenário da criação da Paraíba, em 1985, através de proposta nossa, aprovada na oportunidade, enviou correspondência ao Vaticano pedindo tal privilégio que é ser, hoje, o nosso mais antigo. santuário mariano da Paraíba a igreja Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves.

Além de altas missões delegadas pela CNBB, nosso Arcebispo foi recentemente em Assembléia Geral eleito Vice-presidente desse Órgão representativo da Igreja no Brasil, o que sendo para ele uma honra, lhe acarreta muitos encargos que o obrigam, inclusive, a deslocar-se freqüentes vezes, viajar a Brasília, São Paulo e até Roma. Em decorrência ainda desses novos encargos tornou-se responsável pelo acompanhamento à vida religiosa do Brasil.

 

VIII – CONCLUSÃO

 

À guisa de conclusão deste nosso estudo sobre A IGREJA NA PARAÍBA, gostaria de apresentar interessantes e judiciosas considerações sobre o tema deixado escrito, ao ensejo da ocorrência do centenário da instalação da nossa Diocese (1894-1994) pelo nosso Arcebispo Emérito D. José Maria Pires, o qual distingue duas fases na Igreja da Paraíba:

 

1ª fase: Igreja – Poder Religioso ao lado do Estado – Poder civil, compreendendo os períodos de D. Adauto e D. Moisés. Quer dizer, a predominância era do poder civil sobre a Igreja, segundo D. José Maria.

2ª fase: Igreja – Progressismo e conservadorismo, que engloba os últimos pastores D. Mário Vilas-Boas, D. José Maria Pires e, acrescentaríamos, D. Marcelo Carvalheira.

 

Indaga D. José Maria: Estaríamos iniciando, agora, uma nova fase de Igreja? Estaríamos saindo da contestação, em que ainda se destaca a imagem da Igreja-Poder e partindo para um outro modelo, o da Igreja-formadora de consciência, defensiva dos direitos, inspiradora de esperança e promotora da paz?

É a pergunta de D. José colocada para nossa reflexão.

E assim agradeço e peço mil perdões pela maçada aos presentes. O que vale é minha intenção de prestar minha colaboração a este Ciclo. Deus lê dentro coração e dentro do meu coração está, sem dúvida, a minha Igreja da Paraíba, os Bispos com os quais eu servi, de modo particular, D. Adauto, em cujo período entrei no Seminário; D. Moisés, que me ordenou padre; D. Mário, que apenas lamento a sua fraqueza física por não ter podido seguir o seu programa; D. José, com os piparotes que me deu e que eu retribui à altura, e que hoje é meu amigo (em certo tempo não foi, não; foi meu padrasto e até disse a ele, porque no meu tempo a gente tinha o Bispo como pai, mas ele foi um padrasto); e D. Marcelo, que é aquele coração imenso, a quem nós queremos muito bem.

 

· · ·

 

A fala do Presidente:

 

Nosso debatedor mostrou-nos a direção da Igreja na Paraíba, nesses 500 anos de Brasil, desde quando a Paraíba se transformou na Diocese que abrangia Pernambuco, Itamaracá, Paraíba e Rio Grande do Norte, em 1614.

O registro da atuação dos nossos Bispos e Arcebispos ficará nos nossos anais. Um trabalho dessa natureza é necessário para nossa história eclesiástica.

Por outro lado, temos que acentuar o trabalho apresentado pelo professor Manuel Batista de Medeiros, que deu uma coloração sociológica e política sobre a participação da Igreja na Paraíba..

Apesar do adiantado da hora, passamos a palavra aos que desejarem oferecer algumas considerações.

 

1º Participante:

 

Marcus Odilon Ribeiro Coutinho:

 

Gostaria de saber se a Igreja, que foi tão preocupada com os índios do Brasil, se ordenou algum índio padre?

 

Manuel Batista:

 

Foi ordenado um índio, mameluco. Serafim Leite conta uma designação.

 

Guilherme d’Avila Lins:

 

Quero parabenizar o professor Manuel Batista de Medeiros e o Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares por suas exposições tão oportunas. Quando o professor Manuel Batista falou sobre Capistrano de Abreu refleti o seguinte: a um historiador que tenha um razoável embasamento informativo ele sequer precisa ser católico para perceber a importância da Igreja católica na formação cultural, artística, social, educacional da nossa sociedade. E uma prova evidente deste fato é que o próprio Capistrano era ateu. Completamente ateu, e que sofreu como um condenado quando a filha Honorina resolveu ser freira.. Mas ele disse que não se poderia escrever a História do Brasil sem primeiro escrever-se a história dos jesuítas, melhor dizendo, de todas as ordens religiosas. Na Paraíba, por exemplo, a Ordem da Companhia de Jesus teve um uma influência importante, mas efêmera, porque em dois segmentos. Desde a campanha da fundação até 1593 e, posteriormente, já no século XVII. Isso em conseqüência da política pombalina, que pode ter sido de grande renovação e modernização para Portugal, mas foi um desastre educacional para o Brasil. Porque, até serem expulsos os jesuítas do Brasil, já se formavam mestres nos colégios da Bahia e Rio de Janeiro, com toda a pompa semelhante à da universidade de Lisboa. Por isso entramos num obscurantismo durante um bom período, até que viesse o Seminário de Olinda e se renovasse todo o processo educacional brasileira. Mas, aqui na Paraíba, posso dar meu testemunho pessoal de que as coisas vão melhorar, pois, até o momento, minha melhor ferramenta de fontes primárias para a História da Paraíba é o livro do tombo do Mosteiro de São Bento, o qual muito pouco tem sido consultado, principalmente para a elaboração da nossa história colonial. Ainda não foi escrita a história da Ordem de São Bento, na Paraíba. A Ordem dos Carmelitas também foi importante, mas, lamentavelmente, no zelo que tiveram em esconder seus livros e fontes com a chegada dos holandeses, resolveram enterrá-los, ficando totalmente perdidos vinte anos mais tarde. Devemos ressaltar o trabalho da nossa confreira Glauce Burity, que em sua tese de mestrado falou sobre os Franciscanos., trabalho esse de grande importância para a nossa historiografia. Quando os holandeses tomaram conta Paraíba escolheram para sediar o governo o Convento de São Francisco. E que patrimônio artístico nós temos senão o Convento de São Francisco, a Igreja de São Bento, a Igreja do Carmo. É a Igreja da Guia, um patrimônio sensacional. Passou por um processo de recuperação, mas agora precisa entrar num processo de utilização cultural, ou seja, escrever sobre esses monumentos. Acho que sem a história das Ordens Religiosas na Paraíba, não temos história, ou temos uma história muito pálida.

 

Considerações finais do professor Manuel Batista de Medeiros:

 

Sobre as colocações aqui feitas, posso dizer que ninguém pode calcular o prejuízo da obra de Pombal em cima da cultura. Para se ter uma amostra, o Brasil para agraciar o rei da Bélgica teve que fazer um faz de conta que criava a Universidade do Brasil, que na realidade foi criada neste século. E aí a Universidade podia dar uma comenda ao rei. Enquanto o Peru, já no século XVII, tinha universidade. Eles não tiveram Pombal.

Quanto a historiadores sem fé, se houver sinceridade na cultura, prescinde-se da fé. No século passado o Vaticano abriu seus arquivos. E aí, Pastor, um historiador alemão, protestante, escreveu a história dos Papas em 70 volumes. Então não é preciso ser católico para escrever sobre eclesiologia católica.


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